terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A CHUVA



Começou com um pingo. Caiu-me na ponta do nariz. Olhei pra cima, o céu estava limpo. Outro pingo. Dessa vez na mão direita. Em seguida um “A” e dois “Is”. Entendi de onde vinham os pingos. Um “P” escorreu-me na lente dos óculos. Um “S” , dois “erres”, um “til” e a frequência aumentanto. Corri e me abriguei sob uma marquise. Em questão de segundos, sílabas começaram a desabar, e palavras e frases. Um senhor abrigou-se comigo com a aba do chapéu ensopada por um parágrafo. A calçada estava tomada por páginas inteiras. Uma garota ruiva abriu o guarda-chuva bem na hora em que uma capa despencava em sua cabeça. Pude ver algumas crianças brincando numa correnteza de capítulos. Meia hora de intempérie e as ruas ficaram cobertas de livros.

         - Tempo doido esse.

Disse ao senhor de chapéu.

- Mas estava precisando.

Respondeu-me limpando um “exclamação” que lhe respingou no rosto.


Rick Sadoco

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O DIA D


Ao chegar em casa, na sexta-feira, ele desfez o nó da gravata. Enterrou o terno, a pasta e o cotidiano no fundo do armário. Deixou tudo preparado para o dia seguinte e foi dormir. Não conseguiu embarcar no sono, já que o coração reverberava alto. Não brigou pelas horas de descanso. Ao contrário, introduziu instrumentos imaginários à cadência do coração. Fez da ansiedade, melodia. Embalou-se, entre sonho e vigília, no  prenúncio da alegria que estava por vir. 

Os primeiros raios de luz deram o aviso oficial. Estava decretado que todo o brasileiro tem o direito à felicidade plena por 4 dias inteiros. Ele vestiu-se de esperança e, com o brasão da liberdade em punho, foi Rei. Foi príncipe. Foi super-herói. Foi Pierrô.   Embriagou-se de amor pela colombina. Apaixonou-se pela cigana. Encantou-se com a baiana. Namorou a mais linda das freiras. Perdeu-se e se achou mil vezes em meio à orquestra de pandeiros, repiques e tamborins. E durante 96 horas, viveu como se não houvesse amanhã. O dia D chegou ao meio dia de quarta. Então, ele guardou o brasão da liberdade, vestiu a fantasia cotidiana e foi trabalhar. 

Roberta Saboya

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

IMAGENS


Rio de janeiro, madrugada de sábado.

    Era saída de festa. Estava chovendo e não tinha taxi. ELE a viu, do outro lado da rua, no ponto de ônibus e se sentou ao seu lado.

ELE: – Está indo para o Leblon? Mora lá?
Ela hesitou, mas fez que sim com a cabeça.
ELE: Como é seu nome?
Ela: - Olha, desculpa. Mas, eu estou cansada e não quero conversar.
ELE sabia que Ela ainda não sabia o que estava perdendo.
ELE: -  Sabe? O caminho da minha casa é para lá. Mas, eu vim até aqui porque eu te vi e quero conversar com você. Então, qual é seu nome?
Ela: - Desculpa mesmo. Estou cansada e só quero chegar em casa.
ELE pensou em tudo o que gostaria de fazer: tocá-la, senti-la, beijá-la. A resistência da garota começou a incomodá-lo.  
ELE:  - Olha, eu me desloquei para conversar com você. E você vai conversar comigo. Qual é o seu nome? – Disse, enfático.
Ela: -  Por favor, para. Eu realmente não estou a fim. – Disse, sem encará-lo.
ELE: - Você vem lá de São Paulo para a minha cidade e não quer falar comigo? Garota, eu quero saber seu nome, já disse. – Exigiu, calmamente.
Ela olhou para a mulher ao lado, como quem pede socorro.
Ela: - Confundir sotaque de mineiro com sotaque de paulista é uma insensibilidade, não acha?
    
A mulher ao Lado assentiu. ELE ignorou a Mulher ao Lado. Estava focado na outra. Ela! Podia sentir seu cheiro. Sabia que proporcionaria a Ela uma noite inesquecível.

ELE: - Você ainda não entendeu com quem está falando. Pela última vez: Qual é seu nome, paulistinha?
   
Ela permaneceu em silêncio.

ELE:- Paulista de merda, eu estou falando com você. Qual é o seu nome? – Disse, como um cavalheiro, sem subir um decibel do volume da voz.
Mulher ao lado: - Você precisa ter duas qualidades básicas para abordar uma mulher: respeito e sensibilidade. Mas, para ganhar uma mulher, você precisa de uma coisinha que você não terá jamais: Carisma.
   
Ela riu. Quem essa Mulher pensava que era? Quem eram elas para falar com ELE daquele jeito? ELE teve que mostrar toda sua superioridade. Tirou da carteira a credencial do Ministério Público Federal. Agora, elas sabiam com quem estavam lidando.

Ela: - Você acha que você é melhor do que alguém por causa disso?
   
ELE não achava, tinha certeza. Era muito melhor. Não só por isso. Mas, por tudo. Sentiu-se obrigado a mostrar a elas algumas verdades. Disse-lhes, sem alterar o tom de voz, o quanto eram feias, gordas e velhas. E completou:

ELE: - Vocês estão desacatando uma autoridade pública. Não podem falar assim. Tratem de arrumar um advogado.
Mulher ao Lado:  – Eu sou advogada! Posso ver sua credencial de novo?

   ELE sorriu triunfal e mostrou a Carteira do Ministério Público Federal novamente.

Mulher ao Lado:  - Você sabe que essa carteira é PROVISÓRIA, não sabe? – perguntou irônica.

   O sorriso se foi.  ELE chegou perto do ouvido dela e sussurrou outra verdade inquestionável:

ELE: - Advogada de merda!

   Antes de partir, deixou claro para todos os presentes no ponto de ônibus, o quão bostas, as duas mulheres eram. Olhou em volta. Teve certeza: todos os homens concordavam com ELE. Resolveu deixar aquelas duas pobres diabas ali e saiu andando pela chuva.
Chegou em casa com a urgência de se desfazer das roupas molhadas e do nó no estômago. Não era raiva, mas desprezo. Despiu-se ainda pensando na estupidez das mulheres. Incapazes de identificar sua grandeza. Sentiu pena. Mas, o reflexo da própria imagem no espelho o fez esquecer o episódio. Observou a própria fortaleza: músculos torneados, membro enorme, sorriso perfeito.  Decidiu naquele momento, que da próxima vez que falasse com mulheres, não tentaria fazê-las entender. Não falaria. Só as traria para casa, de um jeito ou de outro, e as faria sentir a mais pura felicidade.  Encantado com própria imagem, ELE adormeceu sem se dar conta da própria magreza. Sem se dar conta da própria feiura. Sem se dar conta do tamanho quase microscópico do próprio pau.

Nota de rodapé: Esse texto é baseado numa história real. 

Roberta Saboya

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Carinho



              O dia estava ensolarado. Ele se levantou cedo com uma disposição que há muito não sentia. Foi à cozinha preparar o café da manhã.  Colocou uma mesa impecável e diversificada de alimentos.  Queria fazer-lhe uma surpresa.  Inspirado pela beleza do dia, seu maior desejo era que ela acordasse bem e se sentisse feliz.
             - Meu amor.
             Disse tocando-lhe delicadamente o ombro.
            - Acorda. O dia está lindo e tenho uma surpresa deliciosa pra você. Me dê a mão, eu te ajudo a levantar. Não. Vou fazer melhor.
           Ele a tomou nos braços. Levou-a a cozinha como um noivo apaixonado carrega sua noiva para o quarto das núpcias.
           - Estou mais romântico hoje, amor.
           Sorriu e a sentou à mesa.
           -Vou servir você. Mamão primeiro porque sei que gosta. Suco de laranja. Torrada com mel.
          Serviu-a com devoção.
          - Amor, agora você tem que comer. Vou ajudar. Mas por favor, não grite.
          Foi até ela com a delicadeza de um beija-flor, pois não queria ferí-la. Retirou-lhe a venda para que ela pudesse ver o que comia.  Afrouxou-lhe a mordaça para que ela pudesse, efetivamente, comer.  Desatou-lhe uma das cordas, para que tivesse liberdade de movimento de mãos e braços. Deixou-lhe as amarras das pernas por precaução e colocou-lhe à frente um pratinho com mamão e torradas.
         -Pra você, meu amor. Fiz com todo carinho.
          Ela o encarou com os olhos arregalados e não disse uma palavra. Ele sorriu e se emocionou. Podia ver nos olhos dela, sentiu que lhe fizera uma surpresa.


 Rick Sadoco

sábado, 19 de janeiro de 2013

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO



“No meio do caminho tinha uma pedra”. Vociferou o poeta, como se estivesse acompanhando de perto a vida dela.  Como se a alertasse, como se quisesse chamar a atenção dela para tamanha dificuldade. Pois, só ele e ela sabiam do peso da pedra no meio do caminho.  Ela estava acostumada com pedras ao longo da estrada, sabia bem desviar delas. Até então,  tinha empurrado, chutado, enxotado  todas as pedrinhas do trajeto. No entanto, agora parecia lenta, fraca, triste. Duvidou de si. A pedra se agigantou. Tomou proporções que as réguas, trenas e léguas não podiam mensurar. Gritou! Perguntou aos céus, mares, e infinitos por que tamanha injustiça: uma pedra tão grande a bloquear justo o seu caminho. Nenhuma resposta. Sentiu-se só. Fechou os olhos, abrindo caminho para a desistência que começou a percorrer manso seus poros, sua pele, seu sangue. Mas, antes que penetrasse as entranhas, ela abriu os olhos. Percebeu que não estava sozinha nem nos lados, nem dentro de si. Criou resistência para a desistência, que teve que fazer, apressada, o caminho de volta. Olhou novamente para a pedra ainda gigante. Silenciosamente, recebeu a resposta à sua pergunta. Encarou a pedra de um outro jeito, já sabendo que a única coisa maior do que a gigante era a sua capacidade de removê-la do meio do seu caminho. Respirou fundo. Não sem dificuldade, não sem esforço, realizou a tarefa que só ela no mundo poderia. E seguiu em frente, sem olhar para trás.  

Nota de Rodapé: Para Clarisse e sua força de enfrentar as pedras no caminho. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

O INÍCIO...


As repetidas voltas do relógio levaram consigo o ano que havia sido peculiar. Nenhum grande amor, nenhuma grande fortuna. Mas intimamente, sabia que havia subido alguns degraus na escala de sucesso que ela própria inventara para si. Valendo-se de sua vitória particular, abriu mão das superstições que sempre lhe foram companheiras. Testemunhou o nascimento do novo ano vestida de preto, com um pequeno cogumelo de porcelana no bolso – presente dado pelos amigos austríacos que obedeciam à própria tradição de réveillon.

Sentia-se mais madura e ainda assim explorou os dias que se passaram com inocência e curiosidade quase infantis. Queria absorver cada momento, cada gosto, cada cheiro, cada alegria das experiências vividas naquela cidade tão fria quanto maravilhosa. O tempo transcorreu rápido. Já era hora de voltar. Arrumou tudo sem pensar no gosto da saudade, que mesmo antecipada, já apertava-lhe a garganta. Deixou para trás o que já não queria mais e partiu. Leve. Na mala, apenas boas lembranças, algumas roupas, e presentes. Na alma, a vontade de descobrir os acontecimentos que o novo ano reservava para si. No coração, a certeza de que um dia voltaria lá. 

Roberta Saboya

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

INSÔNIA


 A cada dia, num horário previamente estabelecido com o infinito, a noite faz sua entrada. Num dos hemisférios, a menina assiste, plácida, ao balé de tons laranjas, vermelhos, púrpuros. Embora o ritual se repita diariamente, a menina não consegue deixar de se inquietar com o final do número. Quando todas as partes se inundam de sombra e silêncio, ela sabe que está na hora do seu padedê particular. Um tango milimetricamente coreografado entre lençóis e trincheiras, tic-tacs e pausas- entre tics e tacs. Seus instrumentos de defesa são a lanterna do computador e som das vozes dos personagens de uma série qualquer. Lutam e repelem o barulho dos seus próprios pensamentos até não aguentarem mais. Exaurida, a menina finalmente se entrega. Fim do tango, por hora. Então, a noite a abraça brevemente e se despede. Parte. E a menina tem algumas horas de descanso, até que a sombra do silêncio toque o primeiro acorde do tango mais uma vez.

Roberta Saboya