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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

AUTORRETRATO

Rio de Janeiro, Domingo (s), 2014

Era um domingo daqueles. De azul límpido de paraíso, sem linha visível a romper o horizonte verde do mar. O sol quebrava o infinito verdazul, soberano, quase sorrindo. A sorrir mesmo estavam os donos das cangas, pranchas e bolas que se embolavam na areia. Duas ruas longe do paraíso, a paisagem era outra: o sol parecia brincar de esconde-esconde com quem transitava, não se podia vislumbrar nem resquício de horizonte, mares de gentes se moviam. Não se olhavam, ou não se viam. Se espiavam, apenas de soslaio, quando desconfiavam umas das outras. O som do radinho enfurecido era abafado pela broca da obra em frente. Obra quase permanente, monumento que se fazia presente naquela paisagem há mais de um ano. A guerra decibética era vencida só e tão somente pelas sirenes das polícias e ambulâncias ambulantes que tentavam, em vão, aplacar alguns gritos de socorro. De passagem, olhei a paisagem: Selvas de prédios, asfaltos, gentes prontas a atacar ou a se defender das outras gentes. Um quadro feio, sem respeito pela cidade - que já fora tão bela- sem respeito pelo sol que devia estar brilhando não muito longe dali, sem respeito pela felicidade de alguém que estava em algum lugar que não aquele. Já na segurança do claustro, buscava apagar a imagem da cabeça. Não queria mais o mar de cinza invadindo o meu HD pessoal. Quis apagar, remover, deletar. Fechei mais uma vez os olhos para expurgar de vez o domingo. Foi então que notei. Olhei para o quadro de novo e ali estava seu Zé, sereno, no meio da calçada. Ele regava o tronco de árvore que eu já tinha esquecido que ali habitava. Seu Zé não se abalava com o radinho enfurecido, com as sirenes, ou com a broca. Alheio àquelas selvas de gentes enfurecidas e amedrontadas, ele regava o tronco. Nem me lembro de ter achado estranho, porque não o enxerguei na paisagem. E só agora lembro que quando passei perto, também amedrontada e enfurecida, vi a orquídea que ele cultivava com cuidado no tronco da amendoeira. Acho que ele me sorriu. Talvez, naquele momento, o sol tenha dado uma espiadinha por detrás dos prédios e iluminado o quadro com um feixe de esperança. Talvez... Quem sabe?

Roberta S Saboya

quinta-feira, 18 de julho de 2013

SAUDADE



Tem dias em que ela acorda, toma café, almoça e janta com você. Você pode tentar despistá-la com trabalho, amigos, amores e boas taças de vinho. Mas, na hora de dormir, você percebe que ela está lá. E te esmaga tão completamente que você tem certeza que ela não se foi nem por um momento do dia. Inocência sua ter pensado que sim. Sem conseguir dormir, você se entrega ao sonho e, acordado, brinca de lembrar. Idealiza o tempo em que tudo parecia estar bem. Ou se fingia estar. Pensa na docilidade do olá. O abraço, ah! O braço forte da camuflada fragilidade. Deseja ter sido Fabiana, Carol, Maria...apenas para ser qualquer pessoa com quem ele tivesse tido a coragem de olhar nos olhos e ser ele.  De pernas e mãos atadas, você se entrega ao silêncio, mas não sem antes se ajoelhar. Ali, lado a lado, vocês oram, incrédulos, pedindo um futuro de boas lembranças.  Até que, esgotado, você se entrega à noite. E ainda, de mãos dadas com a saudade, você atravessa universos  levando consigo apenas a pessoa em quem gostaria de tocar, mas que seus braços, num momento, não tem direito de alcançar. 


Roberta Saboya

segunda-feira, 3 de junho de 2013

FÉRIAS

Hoje, quando tentei levantar,
O dia me convidou a ficar.
Rodei para lá, fiz força para cá.
Resisti.
Mas o corpo teimou em pesar.

Depois de longos cinco minutos,
Como a luta era inglória,
Passei a participar da minha própria história,
Na voz passiva. Caí!
No abismo sem gravidade,
Esqueci da saudade.

Dei chance para o meu tênis descansar,
E nem os chinelos, eu quis calçar.
Abri a porta da rua para o passado ir lá fora brincar,
Aposentei os sonhos,
Dei folga para o futuro,
Deixei a ansiedade respirar calma
E com gotinhas de chocolate preenchi
Os vazios da alma.
Tirei férias de mim.
Hoje, nem o barulho da chuva,
Nem o convite ao amor
Vão me tirar do adultério
De um compromisso sério
Com o quentinho do meu cobertor.

Roberta Saboya


terça-feira, 14 de maio de 2013

ELA ALTEROU SEU STATUS PARA...


  Mudara seu status há poucos dias. Apesar de o seu corpo estar se acostumando, a alma ainda insistia em estranhar a liberdade. O coração oscilava entre os pulos de ansiedade quase pueril e o peso da saudade. Tinha dias em que a dona desse corpo-alma-coração passava horas tentando lembrar porque ela tinha virado a vida dela mesma de pernas para o ar e mudado aquele status. Os dias se passavam e numa hora qualquer, ela se pegou no flagra em meio ao ato de não pensar. E num estalar de dedos, ela era. Do verbo ser, sem pensamento agregado!

   Acho que foi neste dia que reparou o colega de turma. Uma pessoa que sempre esteve ali, mas não significava nada antes. Achou-o mais que bonito: interessante. Olhou para ele. Ele lhe sorriu com “cara de sim”, ela devolveu o sorriso com “cara de talvez”. Sim, ele era casado. Apesar disso, ou talvez alimentados por isso, trocaram mensagens de facebook. Na mesma noite, saiu com as amigas e conheceu o Fofo, possível candidato a amor da vida. Ele sorriu para ela com convincente cara “de vamos agora, para sempre”?  Ela retribuiu com cara de “com certeza, mas espera um pouco, pois sou boa moça e não posso ir rápido demais”. Trocaram telefones. No dia seguinte, reapareceu do passado, um amor esquecido. Ele sorriu com cara de “ainda dá”? Ela retribuiu com um “talvez, muito possivelmente que sim”. Combinaram de sair na semana seguinte.

   Na semana seguinte, nenhuma mensagem de facebook, nenhum telefonema, nenhuma concretização de encontro. Sentiu a dor da saudade de quem abriu mão de ser. Era um dos dias em que havia se esquecido o motivo da sua mudança de status. Então, a solidão sorriu com cara de “posso entrar?”, ela retribuiu com “fique a vontade, mas vou ali e já volto”. E foi para um despretensioso almoço. Lá, encontrou uma possibilidade. Ele sorriu com “hummm”, ela retribuiu com “ahhhh”. Mas, talvez pela bebida, ou pela amizade, ou pelas coisas que passam na cabeça do outro e a gente nunca tem como saber... nada se concretizou. Hummms e ahhhhhs ficaram no ar, no olhar, na expectativa de um futuro que talvez não chegasse.  A solidão ainda espreitava o apartamento, quando ela voltou. Não levou muito tempo para finalmente seu coração conseguir se lembrar o motivo que fez seu corpo mudar tudo. Sentiu na alma o gosto de segunda-feira dos últimos tempos de namoro. Não importava o dia da semana que fosse, no seu antigo status, ela estava presa a uma eterna segunda-feira. Isto posto, ela simplesmente deixou aquela sensação de sexta-feira invadir seu corpo-alma-coração. A esta altura, a solidão já tinha rumado para a casa da vizinha de baixo. 

Roberta Saboya

terça-feira, 23 de abril de 2013

VIDA FÁCIL



Podiam dizer que era fácil a vida dela. Ela podia concordar em parte. A vida de Sônia começava com o sol para lá de alto. Levantava-se ainda Cleonice, entre lençóis puídos e gosto de ressaca. Antes do café, o cigarro. Antes dos pensamentos, a televisão. Tomava café da manhã, à tarde, sempre assistindo a filmes antigos. Era a hora do seu prazer. Quando o letreiro anunciava o Fim, era o começo. Cleonice se pintava com maquiagem barata, perfumava-se com o presente doce dado por alguém que nem lembrava mais, vestia poucas roupas.  Não se olhava no espelho. Mirava-se no cartaz. O velho pôster da Sonia Braga a fazia lembrar porque havia fugido de um pobre cafundó do Brasil para vir para o Rio de Janeiro. Quando via sua imagem no cartaz não lembrava que não havia realizado nada do que planejara. Não lembrava que seu tempo havia passado. Não lembrava que estava só num cafundozinho em Copacabana. Não lembrava quantas vezes teria que abrir as pernas aquela noite para ter o que comer no dia seguinte. Não lembrava do cheiro de cerveja azeda e seca que sentia pelas calçadas toda vez que voltava para casa. Não lembrava o quão difícil era ser Cleonice. Olhava Sônia e seus dentes brancos de manhã calma. Sabia, então, que aquela noite podia ser que fosse o dia em que encontraria a sua manhã calma. Assim partia.  E era fácil! Era muito fácil ser Sônia. 

Roberta Saboya

quarta-feira, 20 de março de 2013

UM INVERNO QUENTE


   
As chances de eles se encontrarem eram remotas, diriam os Otimistas. Ínfimas, diriam os Realistas. Possíveis, afirmava a Probabilidade, silenciando temporariamente Otimistas, Realistas e Pessimistas (já calados dede o início).   Ela era de um país, ele era de outro. Um dia, por diferentes razões, os dois estavam num mesmo lugar. Um terceiro país, muito distante dos seus de origem. A primeira vez que passaram um pelo outro, não se viram. O lugar era estreito e estava cheio. Fazia frio. Os dois andavam o mais rápido possível, entre especiarias e chás. Mantinham os olhos baixos. Talvez pela falta de expectativa. Talvez para evitar os olhos dos comerciantes inconvenientes.   Chegaram a quase se encostar. Mas, se perderam muito antes de saberem que poderiam se achar. Escaparam- se outras tantas vezes, para delírio dos Pessimistas.  

   No dia mais frio daquele inverno, entre “al slaams” e “shukrans” , esbarraram um olhar no outro. Entre artigos de couro e perfume de jasmim, identificaram algo em comum entre si. Sorriram, com todas as partes do corpo, denunciando a própria latinidade.  Delírio dos Otimistas, reação moderada dos Pessimistas e incredulidade dos Realistas. Caminharam juntos, a partir de então. Conversaram sobre todos os assuntos. Ela não falava uma palavra de espanhol, e ele não falava nada de português. E se entendiam perfeitamente. Restava a eles pouco tempo naquele país. Aproveitaram. Entre tapetes e medinas, conheceram níveis de intimidade que nunca haviam vivido antes. Aqueceram-se.  Entre tâmaras e harissas, experimentaram gostos que nunca tinham testado antes. Embolaram-se. Entre futas e lençóis, misturaram tango com o samba. 
   
   Quando chegou o momento, eles voltaram para os seus países. Embora, o verão os fizesse suar, eles ainda exalavam o frescor daquele inverno. Pouco a pouco foram se mesclando à velha realidade: Antigo trabalho, antigos amores...calor! O gosto doce do perfume de jasmin ficou preso em algum lugar entre a memória e o delírio. A cada dia, as chances de existir um tempo como o que passou, ficavam mais remotas. Todo ano, os Otimistas aguardavam esperançosos; os Pessimistas, incrédulos; os Realistas, ansiosos pela possibilidade de um futuro inverno quente. Insistiam no mesmo pensamento, pois ainda que ínfima, havia uma probabilidade. 

Roberta Saboya

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

APESAR DA LUA



   Havia naquela noite algo de sombrio. As ruas estavam vazias. No caminho de volta para casa, teve a sensação de estar sendo observada.  Um sentimento estranho a invadiu, como se estivesse em um filme de suspense. Apressou o passo e entrou no prédio. Alívio! Censurou-se por assistir tantos filmes de mistério. As luzes do prédio não se acenderam. Tentou usar a lanterna do celular...sem bateria. Engoliu em seco. Começou a subir as escadas devagar. Tateava com o pé o caminho, tentando acostumar os olhos à escuridão. No segundo andar, ouviu um ruído. Ela parou. Tentou, em vão, enxergar de onde veio o barulho.  Silêncio. Pegou fôlego e subiu, o mais rápido que pôde, o último lance. As mãos trêmulas dificultaram ainda mais a entrada em casa. Concentrada, tateou até acertar a mira da chave na fechadura.

   Ela entrou rápido. Mesmo em casa, e em segurança, continuou com uma sensação estranha. Tentou acender as luzes. Nada. Arrepiou-se. Respirou fundo na tentativa de se acalmar. Neste momento, viu que a luz da lua invadia a janela da sala e reparou o quanto a noite estava linda. Sorriu. Prometeu-se que, enquanto morasse sozinha, não veria mais filmes de terror.  Acendeu uma vela, serviu-se de uma taça de vinho e foi até o quarto. Ligou o laptop e colocou uma música romântica. A música perfeita para um longo banho quente.  Ao sair do quarto, deparou-se com o maior dos seus pânicos. Sentiu um frio na espinha e congelou, cara a cara, com a mais abominável das criaturas. Ficaram paralisadas por alguns instantes: ela e a barata. Permaneceram assim até a adrenalina dar-lhe forças suficientes para correr e se trancar no quarto. Nervosa, pegou o telefone para chamar alguém... sem bateria. Desesperou-se e chorou até cansar. Depois, ela esperou, por horas, o amanhecer. Estaria segura, já que à luz do dia as baratas sempre somem para um inferno qualquer. Mas, antes que os primeiros raios de sol aparecessem, sua bexiga a traiu. Sem escolha, preparou-se e abriu a porta. Nada. Com a vela numa das mãos, e o chinelo em outra, moveu-se com cautela pelo corredor. Mas, só quando chegou ao banheiro, pôde ver. Ela estava lá... morta, esmagada. Quase comemorou o feito. Segundos depois, com o lampejo de consciência, veio também o arrepio na nuca. Vulnerável e sem fôlego, pensou em correr. Mas, diferente dos filmes de mistério que gostava de ver, não teve nem tempo de gritar.   
   Estava certa, havia algo de sombrio naquela noite. 

Roberta Saboya

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O DIA D


Ao chegar em casa, na sexta-feira, ele desfez o nó da gravata. Enterrou o terno, a pasta e o cotidiano no fundo do armário. Deixou tudo preparado para o dia seguinte e foi dormir. Não conseguiu embarcar no sono, já que o coração reverberava alto. Não brigou pelas horas de descanso. Ao contrário, introduziu instrumentos imaginários à cadência do coração. Fez da ansiedade, melodia. Embalou-se, entre sonho e vigília, no  prenúncio da alegria que estava por vir. 

Os primeiros raios de luz deram o aviso oficial. Estava decretado que todo o brasileiro tem o direito à felicidade plena por 4 dias inteiros. Ele vestiu-se de esperança e, com o brasão da liberdade em punho, foi Rei. Foi príncipe. Foi super-herói. Foi Pierrô.   Embriagou-se de amor pela colombina. Apaixonou-se pela cigana. Encantou-se com a baiana. Namorou a mais linda das freiras. Perdeu-se e se achou mil vezes em meio à orquestra de pandeiros, repiques e tamborins. E durante 96 horas, viveu como se não houvesse amanhã. O dia D chegou ao meio dia de quarta. Então, ele guardou o brasão da liberdade, vestiu a fantasia cotidiana e foi trabalhar. 

Roberta Saboya

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

IMAGENS


Rio de janeiro, madrugada de sábado.

    Era saída de festa. Estava chovendo e não tinha taxi. ELE a viu, do outro lado da rua, no ponto de ônibus e se sentou ao seu lado.

ELE: – Está indo para o Leblon? Mora lá?
Ela hesitou, mas fez que sim com a cabeça.
ELE: Como é seu nome?
Ela: - Olha, desculpa. Mas, eu estou cansada e não quero conversar.
ELE sabia que Ela ainda não sabia o que estava perdendo.
ELE: -  Sabe? O caminho da minha casa é para lá. Mas, eu vim até aqui porque eu te vi e quero conversar com você. Então, qual é seu nome?
Ela: - Desculpa mesmo. Estou cansada e só quero chegar em casa.
ELE pensou em tudo o que gostaria de fazer: tocá-la, senti-la, beijá-la. A resistência da garota começou a incomodá-lo.  
ELE:  - Olha, eu me desloquei para conversar com você. E você vai conversar comigo. Qual é o seu nome? – Disse, enfático.
Ela: -  Por favor, para. Eu realmente não estou a fim. – Disse, sem encará-lo.
ELE: - Você vem lá de São Paulo para a minha cidade e não quer falar comigo? Garota, eu quero saber seu nome, já disse. – Exigiu, calmamente.
Ela olhou para a mulher ao lado, como quem pede socorro.
Ela: - Confundir sotaque de mineiro com sotaque de paulista é uma insensibilidade, não acha?
    
A mulher ao Lado assentiu. ELE ignorou a Mulher ao Lado. Estava focado na outra. Ela! Podia sentir seu cheiro. Sabia que proporcionaria a Ela uma noite inesquecível.

ELE: - Você ainda não entendeu com quem está falando. Pela última vez: Qual é seu nome, paulistinha?
   
Ela permaneceu em silêncio.

ELE:- Paulista de merda, eu estou falando com você. Qual é o seu nome? – Disse, como um cavalheiro, sem subir um decibel do volume da voz.
Mulher ao lado: - Você precisa ter duas qualidades básicas para abordar uma mulher: respeito e sensibilidade. Mas, para ganhar uma mulher, você precisa de uma coisinha que você não terá jamais: Carisma.
   
Ela riu. Quem essa Mulher pensava que era? Quem eram elas para falar com ELE daquele jeito? ELE teve que mostrar toda sua superioridade. Tirou da carteira a credencial do Ministério Público Federal. Agora, elas sabiam com quem estavam lidando.

Ela: - Você acha que você é melhor do que alguém por causa disso?
   
ELE não achava, tinha certeza. Era muito melhor. Não só por isso. Mas, por tudo. Sentiu-se obrigado a mostrar a elas algumas verdades. Disse-lhes, sem alterar o tom de voz, o quanto eram feias, gordas e velhas. E completou:

ELE: - Vocês estão desacatando uma autoridade pública. Não podem falar assim. Tratem de arrumar um advogado.
Mulher ao Lado:  – Eu sou advogada! Posso ver sua credencial de novo?

   ELE sorriu triunfal e mostrou a Carteira do Ministério Público Federal novamente.

Mulher ao Lado:  - Você sabe que essa carteira é PROVISÓRIA, não sabe? – perguntou irônica.

   O sorriso se foi.  ELE chegou perto do ouvido dela e sussurrou outra verdade inquestionável:

ELE: - Advogada de merda!

   Antes de partir, deixou claro para todos os presentes no ponto de ônibus, o quão bostas, as duas mulheres eram. Olhou em volta. Teve certeza: todos os homens concordavam com ELE. Resolveu deixar aquelas duas pobres diabas ali e saiu andando pela chuva.
Chegou em casa com a urgência de se desfazer das roupas molhadas e do nó no estômago. Não era raiva, mas desprezo. Despiu-se ainda pensando na estupidez das mulheres. Incapazes de identificar sua grandeza. Sentiu pena. Mas, o reflexo da própria imagem no espelho o fez esquecer o episódio. Observou a própria fortaleza: músculos torneados, membro enorme, sorriso perfeito.  Decidiu naquele momento, que da próxima vez que falasse com mulheres, não tentaria fazê-las entender. Não falaria. Só as traria para casa, de um jeito ou de outro, e as faria sentir a mais pura felicidade.  Encantado com própria imagem, ELE adormeceu sem se dar conta da própria magreza. Sem se dar conta da própria feiura. Sem se dar conta do tamanho quase microscópico do próprio pau.

Nota de rodapé: Esse texto é baseado numa história real. 

Roberta Saboya

sábado, 19 de janeiro de 2013

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO



“No meio do caminho tinha uma pedra”. Vociferou o poeta, como se estivesse acompanhando de perto a vida dela.  Como se a alertasse, como se quisesse chamar a atenção dela para tamanha dificuldade. Pois, só ele e ela sabiam do peso da pedra no meio do caminho.  Ela estava acostumada com pedras ao longo da estrada, sabia bem desviar delas. Até então,  tinha empurrado, chutado, enxotado  todas as pedrinhas do trajeto. No entanto, agora parecia lenta, fraca, triste. Duvidou de si. A pedra se agigantou. Tomou proporções que as réguas, trenas e léguas não podiam mensurar. Gritou! Perguntou aos céus, mares, e infinitos por que tamanha injustiça: uma pedra tão grande a bloquear justo o seu caminho. Nenhuma resposta. Sentiu-se só. Fechou os olhos, abrindo caminho para a desistência que começou a percorrer manso seus poros, sua pele, seu sangue. Mas, antes que penetrasse as entranhas, ela abriu os olhos. Percebeu que não estava sozinha nem nos lados, nem dentro de si. Criou resistência para a desistência, que teve que fazer, apressada, o caminho de volta. Olhou novamente para a pedra ainda gigante. Silenciosamente, recebeu a resposta à sua pergunta. Encarou a pedra de um outro jeito, já sabendo que a única coisa maior do que a gigante era a sua capacidade de removê-la do meio do seu caminho. Respirou fundo. Não sem dificuldade, não sem esforço, realizou a tarefa que só ela no mundo poderia. E seguiu em frente, sem olhar para trás.  

Nota de Rodapé: Para Clarisse e sua força de enfrentar as pedras no caminho. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

O INÍCIO...


As repetidas voltas do relógio levaram consigo o ano que havia sido peculiar. Nenhum grande amor, nenhuma grande fortuna. Mas intimamente, sabia que havia subido alguns degraus na escala de sucesso que ela própria inventara para si. Valendo-se de sua vitória particular, abriu mão das superstições que sempre lhe foram companheiras. Testemunhou o nascimento do novo ano vestida de preto, com um pequeno cogumelo de porcelana no bolso – presente dado pelos amigos austríacos que obedeciam à própria tradição de réveillon.

Sentia-se mais madura e ainda assim explorou os dias que se passaram com inocência e curiosidade quase infantis. Queria absorver cada momento, cada gosto, cada cheiro, cada alegria das experiências vividas naquela cidade tão fria quanto maravilhosa. O tempo transcorreu rápido. Já era hora de voltar. Arrumou tudo sem pensar no gosto da saudade, que mesmo antecipada, já apertava-lhe a garganta. Deixou para trás o que já não queria mais e partiu. Leve. Na mala, apenas boas lembranças, algumas roupas, e presentes. Na alma, a vontade de descobrir os acontecimentos que o novo ano reservava para si. No coração, a certeza de que um dia voltaria lá. 

Roberta Saboya

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

INSÔNIA


 A cada dia, num horário previamente estabelecido com o infinito, a noite faz sua entrada. Num dos hemisférios, a menina assiste, plácida, ao balé de tons laranjas, vermelhos, púrpuros. Embora o ritual se repita diariamente, a menina não consegue deixar de se inquietar com o final do número. Quando todas as partes se inundam de sombra e silêncio, ela sabe que está na hora do seu padedê particular. Um tango milimetricamente coreografado entre lençóis e trincheiras, tic-tacs e pausas- entre tics e tacs. Seus instrumentos de defesa são a lanterna do computador e som das vozes dos personagens de uma série qualquer. Lutam e repelem o barulho dos seus próprios pensamentos até não aguentarem mais. Exaurida, a menina finalmente se entrega. Fim do tango, por hora. Então, a noite a abraça brevemente e se despede. Parte. E a menina tem algumas horas de descanso, até que a sombra do silêncio toque o primeiro acorde do tango mais uma vez.

Roberta Saboya

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Diferença entre a Espera e a Expectativa




Foram 9 meses de Espera, até ela chegar. Não! Pensando bem, não foi exatamente assim. Há, na Espera, algo que demora, que se dilata. Uma esperança de braços cruzados. Foram 9 meses e durante esse tempo ninguém praticou o ato de esperar, como quem espera um ônibus ou vê a vida passar da janela. Então, reformulo:  Foram 9 meses de Expectativa, até ela chegar.  A Expectativa traz consigo a realização implícita, a esperança ativa de quem amadurece junto.  Hoje, a diferença entre a Espera e a Expectativa pode ser definida sem dicionário, em duas palavras: Maria Luísa.  Foram 9 meses de descobertas e troca. Entre placenta e líquido amniótico, havia uma coisa que não pode ser apalpada, nem examinada, nem medida. Uma coisa que corria livre pelo cordão umbilical, como um folião no primeiro dia de carnaval e saltava nos olhos daquele pai e daquela mãe.  E sob o olhar de uma plateia encantada, Malu fez sua estreia. Entrou nos bailes da vida acalentada, trazendo os bolsos desnudos abarrotados de saúde e amor.  Absolutamente preparada para ser feliz.

Roberta Saboya

Notinha de Rodapé:
Para Guga e Érica, com amor.