quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Diferença entre a Espera e a Expectativa




Foram 9 meses de Espera, até ela chegar. Não! Pensando bem, não foi exatamente assim. Há, na Espera, algo que demora, que se dilata. Uma esperança de braços cruzados. Foram 9 meses e durante esse tempo ninguém praticou o ato de esperar, como quem espera um ônibus ou vê a vida passar da janela. Então, reformulo:  Foram 9 meses de Expectativa, até ela chegar.  A Expectativa traz consigo a realização implícita, a esperança ativa de quem amadurece junto.  Hoje, a diferença entre a Espera e a Expectativa pode ser definida sem dicionário, em duas palavras: Maria Luísa.  Foram 9 meses de descobertas e troca. Entre placenta e líquido amniótico, havia uma coisa que não pode ser apalpada, nem examinada, nem medida. Uma coisa que corria livre pelo cordão umbilical, como um folião no primeiro dia de carnaval e saltava nos olhos daquele pai e daquela mãe.  E sob o olhar de uma plateia encantada, Malu fez sua estreia. Entrou nos bailes da vida acalentada, trazendo os bolsos desnudos abarrotados de saúde e amor.  Absolutamente preparada para ser feliz.

Roberta Saboya

Notinha de Rodapé:
Para Guga e Érica, com amor.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SOPA DE LETRAS


Um dia você chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Me olhou de um jeito muito mais quente do que ultimamente costumava ousar.

Eu Quis evitar seus olhos , mas não pude reagir...pintou vontade.
Afinal, ainda lembro do que passou. Eu, você, em qualquer lugar, dizendo aonde você for eu vou...
Você era sim, e nunca meu não, quando tão louco, me beijava na boca me amava no chão.
E só você podia, dentro da minha orelha fria, dizer segredos de liquidificador. E dizia: Amor, I love you (uh) Amor, I love you (Uh) Amor I Love You, amor I love you. E eu, tinha lá para mim que, naquela época sim, vivia enfim, um grande amor.
MENTIRA!

E um dia, quando olhaste bem para os olhos meus, o teu olhar era de adeus.
E agora?  O que faria eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer, e te querendo fui tentando me encontrar.

E roda mundo roda gigante, roda moinho roda peão.
E quando eu pensei que as loiras geladas não conseguiriam me consolar,
O mundo rodou num instante nas voltas do meu coração.

Um dia, Complicado e Perfeitinho, você me apareceu.
Dizendo: “Você foi, dos amores que eu tive, o mais complicado e o mais simples para mim e Eu Sei que vou te amar, por toda minha vida vou te amar.”
Antes que respondesse: Amor I love you uh, Amor I love you, amor I love you, lembrei que já tivemos momentos, mas passou nosso tempo. Não podemos negar.

Mas, hoje, Só sua presença vai me deixar feliz. Só hoje!
E fizemos amor de madruga, amor com jeito de virada.
No dia seguinte, seu corpo era fruto proibido. Parti e deixei a você apenas o meu olhar 43, aquele de lado já saindo indo embora, louca por mim mesma.
Sabendo que raspas e restos não me interessam mais.  

Roberta Saboya

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eles: Parte 2



Ela pintou um quadro dele...

Ele pintou um quadro dela...

Ele não se reconheceu no quadro dela...

Ela não se reconheceu no quadro dele...

Mas os pintores  estavam felizes, acharam idênticos...


 Rick Sadoco

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CONFISSÃO


Ele entra na sala, em direção à máquina de xerox, como fazia diariamente.

Seria hoje, pensou ela! Agora. Nem um minuto a mais ou a menos. Hoje, falaria tudo. Assim que ele se aproximasse.
Ele remexe os papéis, como era de costume.

Ela prende a respiração involuntariamente. Sabia que ele se viraria em 5, 4.... Ela fecha os olhos 3, 2...e abre a boca, pronta pra falar 1...

Ele não se vira. Algo na planilha do mural o detém.

Zonza, ela se da conta que está prestes a assassinar sua paixão platônica. Morreria hoje: Desapareceria ou viraria outro tipo de paixão. Diante da grandiosidade do fato, percebeu que não conseguiria escapar da sua Montanha Russa íntima.

Ele volta a se virar em direção a ela.

Tonteira, músculos de gelatina, redução drástica da idade emocional, êxtase; eram familiares efeitos colaterais que a simples presença dele causava ao corpo dela.
A caneta dele cai. Ele se abaixa.

Logo, os olhares se cruzariam. Subida da montanha russa. Na mente dela, pensamentos saltavam como pop-ups: Talvez as palavras sejam agressivas ou estúpidas demais. “Ok!” Não diria as palavras, então. Falaria tudo hoje sim, apenas com o olhar. E diria tudo num beijo ávido... “Patético!” Disse o alarme da autocensura. Decidiu-se: “Mímica!” Em gestos simples e não dramáticos, ela o convidaria para um chope e, bêbada, vomitaria em letrinhas o desejo que sufocara durante meses.

Ele se levanta. Lindo. Sorriso no rosto e caneta na mão.
Ela desiste. Não conseguiria enfrentar tanta beleza. Não hoje. Montanha Russa... Amanhã, falaria tudo. Nem um minuto a mais ou a menos.

Ele sai.
Sem que percebesse, as duas sílabas que a faziam suspirar escaparam da boca: “Chico!”. Em silêncio, ela torce para ele não ter ouvido sua impulsividade.

Ele ouviu. Volta à sala. Os olhares se cruzam. À beira do abismo da Montanha Russa, ela sorri. Talvez, diga tudo hoje. Talvez, não precise.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Encontro


João e Lúcia se conheceram pela internet. Paixão à primeira teclada. Lúcia não era nada que fosse um padrão de beleza. João a mesma coisa. Trocaram fotos. Sentiram-se seguros, ninguém omitia quem era. Falaram-se pela webcam. Fizeram sexo virtual.  Após dois meses de relação cibernética combinaram o encontro. Estavam ansiosos. Marcaram local público, uma praça. Já se viram de longe e constataram que nada estava diferente do previsto. Abraçaram-se e começaram a conversar. João sentiu um cheiro em Lúcia, algo que não imaginava. Lúcia limpou alguns perdigotos que João lhe lançava ao falar. Beijaram-se, Lúcia mais calma e romântica, João mais afoito e fogoso. Foram a um motel. Nus, um diante do outro, tudo continuava semelhante ao já visto. Mas o cheiro de Lúcia ainda impressionava João. E os perdigotos de João ainda impressionavam Lúcia. Transaram. João gostou, apesar de sentir-se desconfortável com o odor de Lúcia. Lúcia gostou, apesar de achar que João poderia falar menos durante o sexo para, assim, cuspir-lhe menos. No banho tudo foi perfeito, João não sentia o cheiro de Lúcia e Lúcia não sentia os perdigotos de João. Secaram-se. Vestiram-se. Despediram-se. Não se encotraram mais. Uma ou duas palavras pelo chat. Preferiram ficar sós a passar a vida embaixo do chuveiro.

Rick Sadoco

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pour Elise


Quando acordou ja estava morta. Tentou se lembrar de alguma coisa. Mas, nada, nem mesmo de seu nome. Só sabia que estava ali, acordada e morta! Andou pelo quarto do qual não se lembrava. Olhou pela janela a paisagem, aparentemente nunca vista. O tapete estranho com estampas florais estava amontoado em um canto. Acima da cama, um quadro com um barco à vela lutando contra ondas gigantes. Os porta-retratos exibiam sorrisos desconhecidos. Olhou sorriso por sorriso, algum deles deveria ser o seu. Rondou pelo quarto à procura de um espelho. Encontrou-o na tampa de um porta-jóias que tocava Pour Elise quando aberto. Fitou-se ao som da melodia. Seus olhos negros, seu nariz aquilino, sua boca fina, seus cabelos encanecidos, seus dentes pequenos, suas rugas profundas, nada ali lhe era familiar. Apenas uma coisa, a música. Lembrava-se da canção e dos caminhões de gás que a tocavam pelas ruas. Que ruas? Tentou sair do quarto, a porta estava trancada. Voltou à janela, parecia alto demais pra pular. Estava morta, que diferença faria? Subiu no parapeito, levando consigo o porta jóias. Não sentia medo, não sentia nada. Pulou. Ao tocar o chão, não tentou se levantar. Ficou ali, deitada. Alguns gritos e algo parecido com uma sirene misturaram-se ao som familiar do porta-jóias que ainda tocava. Embalou-se e dormiu, morta.

Rick Sadoco
      

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Um Conto de Fadas Moderno


Era uma vez Uma Princesinha inocente. Ela vivia feliz e contente na sua pequena grande floresta, num reino não muito distante. Numa bela manhã de domingo, durante o piquenique da Princesa Aurora, ela conheceu um Coelhinho. Ele era fofo: muito pequenino e tinha o nariz muito arrebitado. Ficaram amigos. Pouco tempo depois, viraram companheiros inseparáveis.  Nenhum passeio, nenhum banquete, nenhum sarau tinha graça se os dois não estivessem juntos. O mundo deles era tão perfeitinho! Mas, deixou de ser no dia em que o pequeno coelhinho de nariz arrebitado virou-se para a Princesinha e disse:

- Estou precisando pensar. Não é nada com você, é comigo. Tenho que ficar sozinho e pode acreditar, Princesa, estou arrasado por isso, mas realmente preciso de um tempo.

A Princesinha ficou muito confusa e tentou balbuciar algumas palavras. Ela queria conversar. Mas o coelhinho, mais que depressa, saiu correndo e sumiu sem deixar rastros.

A Princesinha voltou para o castelo se perguntando o que poderia estar acontecendo com ele? O que ele estaria pensando? Por que ele não dividia com ela as suas questões? Ela sentiu-se sozinha, sozinha.

- Quem no mundo poderia me salvar de tanta tristeza? -refletiu a menina.

- Oh, sim... A minha Personal Fada Madrinha. – respondeu para si mesma.

A Princesinha, então, pensou bem forte. Fez tudo como manda o figurino de todas as histórias de contos de fada, para chamar a atenção da sua Fada. E...nada. Por mais força do pensamento que a Princesinha fizesse a Fada Madrinha não aparecia. Nunca, na história de todos os reinos, uma Princesa se sentiu tão abandonada. Depois de um momento de insano desespero, ela resolveu não se entregar ao drama. Decidiu abandonar momentaneamente o papel de frágil donzela e lutar pelo seu amor como um bravo guerreiro. Furtou de seu pai a capa, a espada, o cavalo branco e partiu.  Foi atrás do amor da sua vida: o coelhinho de nariz arrebitado!

Um tempo depois... ela avistou o coelhinho. Estranho! Ele não parecia triste, nem reflexivo. Na verdade, estava sorrindo. Mas, do que sorria se o mundo estava tão triste agora que não estavam juntos? Um momento depois, entendeu que ele não sorria por alguma coisa, mas para alguém. Por trás dos arbustos, a Princesinha pôde ver direitinho quem caminhava ao lado dele.

Os olhos da Princesinha praticamente queimaram quando ela viu sua personal Fada se aproximando do amado e tascando-lhe o beijo mais viveram felizes para sempre já visto nas histórias dos contos de fada. A Princesinha morreu. Ou achou que tivesse morrido por um segundo. Não, droga! Estava viva e sofrendo. Tinha que pensar no que faria dali por diante. Esperou a ex-Fada Madrinha se afastar para dizer para o amado tudo o que estava borbulhando dentro dela. A Princesinha estava disposta a fazer qualquer coisa para ele a amar novamente: colocaria silicone, faria dieta, pintaria os cabelos de loiro, usaria varinha de condão, mudaria de time....qualquer coisa. Queria dizer para o coelhinho quanto o amava, o quanto poderiam ser felizes juntos.
 
Quando conseguiu ficar a sós com seu querido amado coelinho, a Princesinha percebeu que as palavras de amor se perderam num reino longínquo entre o coração e a garganta. E mudou os planos. Utilizou muito bem a capa e a espada furtadas de seu pai. Devargarzinho e aos poucos fez o coelhinho sentir na pele o sofrimento que ela tinha sentido no coraçãozinho dela.

Dias depois, a Princesinha deu um belo banquete e convidou todas as Princesas dos reinos próximos para comer cozido...de coelho.  A ex-Fada Madrinha, aquela vaca, desesperou-se em segredo com o sumiço do coelhinho-amante. Procurou-o enlouquecidamente por dois dias inteiros. Depois, apareceu um coelhão e a Fada acabou esquecendo.  

Enquanto degustava o banquete, a Princesinha refletia sobre um velho ditado. E a cada colherada, discordava mais e mais dele. Afinal, vingança é um prato que se pode comer quente.

E assim, a Princesinha inocente cresceu. E viveu: solteira, casada, separada, apaixonada, desconfiada, infeliz, feliz... mulher para sempre. 

Roberta Saboya