segunda-feira, 9 de julho de 2012

ESPERANDO O PRESUNTO


Volta e meia a genial peça de Samuel Beckett me vem à cabeça.  O texto fala sobre dois amigos (Vladmir e Stragon) que se encontram e ficam esperando Godot chegar.  Toda vez que tenho que esperar alguém, a Peça simplesmente surge. Pensamento inevitável.

Num fim de semana desses, meu irmão veio com a mulher e os amigos da turma do Pólo aquático para o Rio. Para eles, seria um fim de semana especial. Vieram sem os pais, sem os filhos, sem obrigações. Foi na Lapa que o fim de semana começou. Chegamos cedo. Todos animados. Estávamos em um grupo grande, eu e o pessoal do Pólo. Paramos em um ponto da rua principal do agito.

- Onde vamos? - alguém perguntou. 

- Por enquanto, não vamos a lugar nenhum. O Presunto está chegando e combinei de encontrar com ele na frente da banca de jornal, do lado deste bar Arco-íris. - respondeu Macalé.

-Vamos sentar em algum lugar, e a gente liga para ele. -Alguém sugeriu.

- O Presunto está sem celular, temos que esperar aqui. Mas, quando eu estava saindo ele já estava terminando de se arrumar. Já deve estar chegando. -  Macalé disse por fim.

Ninguém contestou. Esperaríamos o Presunto, afinal ele já estaria chegando.

-Alguém quer cerveja?

Todos queriam.

-Você sabe se algum vendedor ambulante vende Heineken? -Meu irmão perguntou.

- NA LAPA??? - Respondi espantada e completei: - Não serve Antarctica?
 
Não servia. O pessoal do polo só bebe Heineken. Peguei uma Antarctica e pensei na tarefa inglória que eles teriam durante a noite.   Macalé resolveu procurar algum lugar que vendesse Heineken. Esperamos ali mesmo, pois o Presunto já estava chegando. Teoricamente.  
Um tempo se passou até a volta desanimada de Macalé. Nada de Heineken. Mais gente se juntou a ele na missão. Waller disse:

- Vamos continuar procurando, não saiam daqui.

Esperamos, em pé, mais algum bom tempo. Alguns se renderam:

- Vamos começar na Antarctica. Não é nenhum pecado, né?

Para eles, era. Mas, como a espera estava grande e a vontade gigante, Sari redimiu a todos:

-Não tem problema. Essas não contam. Depois a gente troca.

A noite foi passando e nada de Presunto. Mas, tudo bem, porque a Heineken chegou, trazendo com ela os sorrisos de orelha a orelha do Macalé e do Waller.

- Vocês não sabem a aventura que foi para conseguir. – Disse Waller.

Quando a rodada terminou, todos se olharam em silêncio, se perguntando secretamente quem enfrentaria a aventura para buscar a segunda rodada. 

- Por que não vamos todos e ficamos mais perto da cerveja? – Sugeri.

- O Presunto está chegando, esqueceu?

Já tinha passado tanto tempo, que eu tinha esquecido mesmo.  Alguns se renderam à Antarctica, outros resolveram percorrer o caminho rumo à Heineken.  E com o passar de muito tempo começamos a entender que se o Presunto estivesse realmente chegando, ele já teria chegado. Eu desabafei :

- Vamos sentar em algum lugar, pessoal. Quando o Presunto chegar, ele procura a gente.

Todos concordaram timidamente. Agora a dúvida era para onde ir. O casal, Carol e Rafael, queria conhecer o Rio Scenarium. Dani e Bob queriam ir para o Carioca da Gema, já Clarisse e Bernardo queriam sentar num barzinho... Antes de se darem conta que não chegariam a um consenso, pensaram no Presunto. Não podiam sair todos dali. Alguém teria que esperar o Presunto. Decidiram que iam fazer rondas de revezamento. Os meninos buscariam a Heineken, enquanto Clarisse e Bernardo tomavam um chope no barzinho. Quando eles voltassem, alguns iam dar uma voltinha até o Rio Scenarium, e outros entrariam um pouquinho no Carioca da Gema. E assim foi feito.

Quando eu e minha Antarcitica já estávamos nos divertindo com aquela situação, lá pelas tantas, aconteceu o milagre. Diferente de Godot, o Presunto chegou. E todos finalmente sentamos para comemorar.  Eu me perguntava, como é que esse pessoal vem de Brasília com tão pouco tempo para aproveitar o Rio e passa uma noite inteira esperando o Presunto?  Assim que sentamos, entendi.

Tudo o que aconteceu durante a espera virou história. A Heineken, os ambulantes, o Rio Scenarium, o Carioca da Gema, o outro bar... E o Presunto contou o motivo do atraso dele. E fez todos caírem na gargalhada. Eles contaram histórias novas, histórias antigas, conversavam como se não se vissem há muito tempo.  Às vezes, um não precisava nem contar o final da história, para o outro entender e rir junto. E como eles riam. Ao contrário do que possam pensar, a quantidade de cerveja ingeridas não era a autora única das crises de riso. Entrosamento. Um passava a bola para o outro, que já tinha entendido toda a jogada antes dela ser feita, e já corria para fazer o gol. Tem coisas que são engraçadas só quando compartilhadas com quem se tem cumplicidade. Eu percebi que eles eram um time.  Cada um com sua função. Cada um do seu jeito. Entendi que a cidade Maravilhosa, seria um pouco menos maravilhosa para eles, se não estivessem juntos.
 Nunca me diverti tanto numa noite.

Notas de Rodapé:
1- Para o meu irmão, que esperou por este texto quase tanto tempo quanto Vladmir e Stragon estão esperando Godot.
2 -Para o Beto, que sempre fará parte desse time. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

No Elevador


Esposa dedicada, profissional brilhante, mulher linda. Clara é uma dessas pessoas que não cometem deslizes. Nunca. E ela se orgulha disso. 

Um dia, saiu apressada de casa. Quando entrou no elevador, no oitavo andar, percebeu que tinha que voltar para casa. Fisicamente tinha que voltar para casa, mas sabia que se voltasse chegaria atrasada. Então deixou a porta do elevador fechar atrás de si e tomou a decisão. Conscientemente cometeu seu deslize secreto. Um inocente, silencioso, e rápido pum. Mulheres como ela não peidam, soltam puns. Eram apenas oito andares e não era um horário de movimento no prédio. Podia ser que ninguém entrasse no elevador.
Acontece que no sexto andar ele entrou. O zombador dos zombadores, o piadista do prédio, o líder na arte de fazer uma história qualquer se tornar engraçada. O pior é que o punzinho inocente, apossou-se da atmosfera e fez uma combinação com o ar, transformando-se num pum pesado e muito, muito fedido. 

Clara ficava de cabeça baixa, rezando para ele não desconfiar de nada. “Talvez, ele tenha algum problema de olfato e não consiga detectar cheiros”, pensou ela. Só esse fato ou uma hecatombe nuclear a tirariam daquela posição constrangedora. Mas, enquanto o elevador movia-se em câmera lenta, ela pôde notar que ele abria as narinas e inspirava bastante profundamente. Sim, ele podia detectar cheiros. Só restava a ela a hecatombe nuclear.
A situção tornou-se totalmente insustentável na altura do terceiro andar. Ela não sabia o que fazer. Ele tinha um ar investigativo nos olhos. “O que estaria pensando?” O silêncio e o cheiro do próprio pum estavam a matando. E o olhar dele... “O que diabos ele estava pensando?”  Quando ela achou que fosse morrer sufocada, de vergonha e de tudo junto, ele rompeu o silêncio.Falou sério, calmo, preciso e sem tom condenatório. “Almôndega”!
Aliviada, Clara abraçou o rapaz. Finalmente estava livre da sua própria perfeição.  

 *Texto Inspirado numa das maravilhosas histórias de Rodrigo Nery Atem

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Dia Dos Namorados do Ano Seguinte


    Cris não acreditou quando eles se separaram. Era verdade que o namoro já não era mais o mesmo. Quem olhasse de fora poderia jurar que Karina e Marcelo pareciam apenas bons amigos. E daí? Cris sabia que era o caminho normal de todo relacionamento longo. Mas, separação?  Entre Karina e Marcelo? Foi um choque. Ironicamente, a notícia espalhou-se no dia dos namorados. Os amigos não conseguiam imaginar como seria a vida de Karina sem Marcelo ou a de Marcelo sem Karina, e a deles mesmos sem Karina+Marcelo.
    
   Eles foram levando suas vidas, cada um com o seu inverno particular. No verão, Cris notou que Karina estava diferente. Mas, nada tinha mudado substancialmente. Ela só estava + Karina. Ela começou a atrair os olhares masculinos. Cris vibrava e incentivava a amiga, mas Karina dizia não estar pronta para um novo relacionamento. Até que um dia Cris notou, que a cada pausa de conversa, Karina suspirava fundo e assobiava sem perceber. Cris perguntou na lata: 

- Você está saindo com alguém? 

    Karina desconversou. Desconfiada, Cris passou a fazer a mesma pergunta todos os dias. Karina negava, cada vez mais misteriosa. Os sumiços frequentes e as insistentes trocas de mensagens entre a amiga e o “namorado oculto” deram à Cris a certeza de que Karina estava saindo com alguém. Mais que isso, sabia que Karina estava apaixonada.  Cris só não entendia o por quê do mistério. Aventou algumas hipóteses: seria por que o homem era casado? Por que o homem era muito mais velho? Por que era muito mais novo? Será que o Homem era uma mulher? O que de tão errado podia haver para Karina não querer contar para ela?
Descobriu no Dia dos Namorados. Cris disse que ia ficar sozinha no dia dos namorados, já que Rogério estava de plantão. Convidou Karina para jantar. Karina disse que não podia. Tinha compromisso. Então, Cris entendeu o mistério. O único motivo possível do segredo era Karina estava tendo um caso com Rogério, seu noivo. Disposta a flagrar a traição, foi até ao apartamento da Karina na noite em questão. Sabia que a amiga escondia a chave reserva em baixo do tapete do hall de entrada. Cris pegou a chave e enfiou na fechadura. Flagrou a amiga. Só que o acompanhante não era Rogério. Cris ficou furiosa.

-Vocês? Vocês estão tendo um caso??? Como assim??? Por quê?
- A gente não queria precipitar as coisas. Estamos indo devagar com a relação. Toma uma taça de vinho com a gente?

   Cris sentou, aturdida, no sofá. Karina e Marcelo riam e se olhavam com cumplicidade. Uma cumplicidade que Cris jamais tinha visto entre os dois. Eram Karina e Marcelo. Ainda assim, muito diferentes da Karina + Marcelo que Cris conheceu antes do término. Estavam juntos, mas não misturados. Ele apaixonado pela Karina sem Marcelo e ela apaixonada pelo Marcelo sem Karina. Marcelo encheu as taças e brindou.

- Feliz dia dos namorados.

Notinha de Rodapé: Uma pequena homenagem para os casais que se redescobrem e reinventam diariamente a delícia de estarem juntos.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eles


Ele queria sexo...
Ela queria romance...
Ele deu a ela romance, conseguiu  sexo.
Ela deu a ele sexo, conseguiu romance.
E viveram felizes para sempre...
Ou não...

Rick Sadoco

terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma e Outra


Teresa e Joana trabalham no mesmo lugar. Fora isso, não tem mais nada em comum. Uma nasceu no interior, numa das paisagens mais áridas e feias que se pode imaginar, em meio a uma família populosa e de recursos escassos. A outra nasceu na capital, num dos mais belos cenários já vistos no mundo, em uma família de baixa densidade demográfica e de bons recursos. 

Uma sabia que as esperanças depositadas na sua existência eram áridas como sua terra. A outra sabia que as esperanças depositadas nela eram altas como suas possibilidades. Uma sabia que podia ser melhor do que julgavam. A outra tinha dúvidas. Enquanto uma estudava para conseguir tudo o que sonhava, a outra estudava para não decepcionar os que sonhavam por ela. Enquanto uma conquistava, a outra preenchia lacunas. E iam vivendo: uma, vencendo os desafios. A outra, fugindo deles. 

Foram apresentadas no dia em que uma realizou o sonho de ver o mar, e a outra decidiu que estava cansada de vê-lo todos os dias. Teresa e Joana seriam colegas de trabalho. Mas, uma não prestou muita atenção na outra. Estavam focadas na carreira. Uma sabia que era apenas uma pequena empresa, um degrau a mais na sua escalada para uma vida melhor. A outra sabia que era uma pequena empresa, e que talvez não tivesse competência para ir para um lugar melhor. Para uma, era uma porta que conduziria para um infinito de possibilidades; para outra era um confortável beco sem saída e nada mais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Dívida


      Eram muito amigos. Os melhores. José mais extrovertido e comunicativo. Vítor mais quieto e observador. Completavam-se. Consideravam-se irmãos e sabiam que podiam sempre um contar com o outro. Em função disso, José, emaranhado em dívidas de um negócio mal sucedido, recorreu ao amigo.
      - Vitinho, me enrolei todo. A distribuidora anda de mal a pior. Estou atolado em dívidas e com a gravidez da Solange as coisa ficaram pretas.
      - De quanto você precisa?
      O amigo não pestanejou. Tirou de sua reserva pessoal pra imprevistos e deu ao amigo.
      - Pague quando puder. Não tenha pressa.
      - Você é meu irmãozão! Pode contar sempre com o amigo aqui. 
   O tempo e seu incessante movimento fizeram a Lua e o Sol nascerem algumas vezes até o reencontro dos amigos no aniversário de Rita, mulher de Vítor. José deu a ela um lindo colar de ouro branco.
      - Obrigado amigão. Não precisava se preocupar tanto. Deve ter sido caro.
   - Minha cunhada Vitinho. Ela merece e além do mais as coisas estão melhorando. E olha, não esqueci a dívida não, já te pago.
      Mais luas e mais sóis. As esposas marcaram um jantar entre casais.
      - Solange está muito bonita com esse barrigão. Quantos meses já?
      - Seis.
      - Nossa! O tempo passa.
      - Passa mesmo e saiba que não esqueci daquele nossa pendência. Já te pago.
     E assim foi até o nascimento da filha de José e Solange. José nunca deixava de mencionar a tal dívida. Falou dela quando reabriu a distribuidora, quando foi mostrar seu carro novo, quando reformou a casa, quando viajou em segunda lua de mel pela Europa e até mesmo quando abriu uma filial da distribuidora na cidade vizinha. Falava... falava... falava.
      - Amigão. O melhor do mundo. Nunca esqueço a dívida que tenho com você.
     - Bom você tocar nesse assunto, Zé. As coisas lá em casa não estão muito bem. A grana está curta. E como vejo que está reestabelecido gostaria de pedir que...
     - Quanto você precisa?
    Interrompeu José que não exitou. Tirou de suas reservas pessoais pra viagens internacionais e deu ao amigo.
     - Pague quando puder. Não tenha pressa.

Rick Sadoco

terça-feira, 1 de maio de 2012

É Proibido Permitir ou a Casquinha de Sábado à Noite



Seria liberado, se não fosse proibido;
Seria errado, se não fosse irracional;
Seria quase amor, se não fosse ânsia;
Seria doce o olhar, se não me despisse da cabeça aos pés;
Seria suave, se não fosse o desejo;
Seria suspiro, se não fosse ofegante;
Seria compromisso, se não fosse descompromisso;
Seria infinito, se não fosse momentâneo.
E se fosse?
Ah, se fosse...Seria liberado e não proibido.
Num suspiro calmo, de quase amor.
Nas manhãs de olhar doce, a cada despedida,
E nas noites, a cada reencontro,
Na tranquilidade do se saber infinito,
Aquele olhar, logo se tornaria cansado,
Ansiando pelo momentâneo ofegante
Da liberdade proibida de um sábado à noite qualquer.
E se não fosse?
Ah, se não fosse... o sábado à noite seria permitido e ponto. Sem as vírgulas de um “se” de proibida liberdade, e ele sentiria saudade da sua rotina de quase amor.   

Roberta Saboya