segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eles


Ele queria sexo...
Ela queria romance...
Ele deu a ela romance, conseguiu  sexo.
Ela deu a ele sexo, conseguiu romance.
E viveram felizes para sempre...
Ou não...

Rick Sadoco

terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma e Outra


Teresa e Joana trabalham no mesmo lugar. Fora isso, não tem mais nada em comum. Uma nasceu no interior, numa das paisagens mais áridas e feias que se pode imaginar, em meio a uma família populosa e de recursos escassos. A outra nasceu na capital, num dos mais belos cenários já vistos no mundo, em uma família de baixa densidade demográfica e de bons recursos. 

Uma sabia que as esperanças depositadas na sua existência eram áridas como sua terra. A outra sabia que as esperanças depositadas nela eram altas como suas possibilidades. Uma sabia que podia ser melhor do que julgavam. A outra tinha dúvidas. Enquanto uma estudava para conseguir tudo o que sonhava, a outra estudava para não decepcionar os que sonhavam por ela. Enquanto uma conquistava, a outra preenchia lacunas. E iam vivendo: uma, vencendo os desafios. A outra, fugindo deles. 

Foram apresentadas no dia em que uma realizou o sonho de ver o mar, e a outra decidiu que estava cansada de vê-lo todos os dias. Teresa e Joana seriam colegas de trabalho. Mas, uma não prestou muita atenção na outra. Estavam focadas na carreira. Uma sabia que era apenas uma pequena empresa, um degrau a mais na sua escalada para uma vida melhor. A outra sabia que era uma pequena empresa, e que talvez não tivesse competência para ir para um lugar melhor. Para uma, era uma porta que conduziria para um infinito de possibilidades; para outra era um confortável beco sem saída e nada mais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Dívida


      Eram muito amigos. Os melhores. José mais extrovertido e comunicativo. Vítor mais quieto e observador. Completavam-se. Consideravam-se irmãos e sabiam que podiam sempre um contar com o outro. Em função disso, José, emaranhado em dívidas de um negócio mal sucedido, recorreu ao amigo.
      - Vitinho, me enrolei todo. A distribuidora anda de mal a pior. Estou atolado em dívidas e com a gravidez da Solange as coisa ficaram pretas.
      - De quanto você precisa?
      O amigo não pestanejou. Tirou de sua reserva pessoal pra imprevistos e deu ao amigo.
      - Pague quando puder. Não tenha pressa.
      - Você é meu irmãozão! Pode contar sempre com o amigo aqui. 
   O tempo e seu incessante movimento fizeram a Lua e o Sol nascerem algumas vezes até o reencontro dos amigos no aniversário de Rita, mulher de Vítor. José deu a ela um lindo colar de ouro branco.
      - Obrigado amigão. Não precisava se preocupar tanto. Deve ter sido caro.
   - Minha cunhada Vitinho. Ela merece e além do mais as coisas estão melhorando. E olha, não esqueci a dívida não, já te pago.
      Mais luas e mais sóis. As esposas marcaram um jantar entre casais.
      - Solange está muito bonita com esse barrigão. Quantos meses já?
      - Seis.
      - Nossa! O tempo passa.
      - Passa mesmo e saiba que não esqueci daquele nossa pendência. Já te pago.
     E assim foi até o nascimento da filha de José e Solange. José nunca deixava de mencionar a tal dívida. Falou dela quando reabriu a distribuidora, quando foi mostrar seu carro novo, quando reformou a casa, quando viajou em segunda lua de mel pela Europa e até mesmo quando abriu uma filial da distribuidora na cidade vizinha. Falava... falava... falava.
      - Amigão. O melhor do mundo. Nunca esqueço a dívida que tenho com você.
     - Bom você tocar nesse assunto, Zé. As coisas lá em casa não estão muito bem. A grana está curta. E como vejo que está reestabelecido gostaria de pedir que...
     - Quanto você precisa?
    Interrompeu José que não exitou. Tirou de suas reservas pessoais pra viagens internacionais e deu ao amigo.
     - Pague quando puder. Não tenha pressa.

Rick Sadoco

terça-feira, 1 de maio de 2012

É Proibido Permitir ou a Casquinha de Sábado à Noite



Seria liberado, se não fosse proibido;
Seria errado, se não fosse irracional;
Seria quase amor, se não fosse ânsia;
Seria doce o olhar, se não me despisse da cabeça aos pés;
Seria suave, se não fosse o desejo;
Seria suspiro, se não fosse ofegante;
Seria compromisso, se não fosse descompromisso;
Seria infinito, se não fosse momentâneo.
E se fosse?
Ah, se fosse...Seria liberado e não proibido.
Num suspiro calmo, de quase amor.
Nas manhãs de olhar doce, a cada despedida,
E nas noites, a cada reencontro,
Na tranquilidade do se saber infinito,
Aquele olhar, logo se tornaria cansado,
Ansiando pelo momentâneo ofegante
Da liberdade proibida de um sábado à noite qualquer.
E se não fosse?
Ah, se não fosse... o sábado à noite seria permitido e ponto. Sem as vírgulas de um “se” de proibida liberdade, e ele sentiria saudade da sua rotina de quase amor.   

Roberta Saboya

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Colega


      Ao atravessar a rua, avistou-a. Uma colega dos tempos de escola. Marisa estava linda. O cabelo brilhando, o corpo perfeito e as roupas belíssimas. Sentiu uma pontada fria no estômago. Queria aquelas roupas, aquele cabelo e aquele corpo.  Pensava repetidas vezes:
       - Como ela conseguiu manter-se linda?
        A imagem esguia, bela e bem vestida não lhe saia da cabeça. Foram semanas de tortura até que se decidiu.
      - Vou procurá-la.
      Entrou  em contato com várias amigas da época e enfim descobriu onde encontrá-la. A colega era advogada. Telefonou ao escritório e marcou um horário, como se fosse cliente.
     - Bom dia.
     - Bom dia, Marisa. Acho que você não se lembra de mim. Estudamos no segundo grau. Vim aqui pra dizer que você está muito bem. Bonita, com um corpo ótimo. Parabéns.
     Pasma e sem nada entender a colega agradeceu.
    - Não foi nada. A verdade deve ser dita, né? É isso. Bom te rever.
    Levantou-se, deu à colega um cumprimento de mãos e saiu deixando a outra perplexa. Pegou um taxi e foi direto pro shopping.  Comprou roupas novas, fez um novo corte de cabelo e até se matriculou em uma academia. No caminho de volta pra casa, estava aliviada. A cabeça parecia pesar bem menos.
   - Olhando, assim de perto, achei Marisa bem acabadinha.

Rick Sadoco

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Pecado Mora ao Lado

Eram inseparáveis. Desde os tempos das fraldas molhadas, andavam juntas. Mesmo bairro, mesma turma, mesma classe de balé, mesmas viagens, mesmos sonhos, mesma faculdade. Eram unha e carne e tinham juntas algumas ideias fixas (Homem ideal para ter uma noite de sexo selvagem: Mark  Wahlberg / O Marido ideal: Rodrigo Santoro/ Ano em que o mundo vai acabar: 2021).

Numa manhã, Julia estava na varanda tomando café quando, de repente, viu seu “futuro marido” na varanda do apartamento ao lado. Sim! A “Lei da Atração” era verdade. Rodrigo Santoro era seu novo vizinho. Julia saiu na velocidade da luz e foi contar a novidade. Mais do que depressa, Bárbara fez sua mala e se mudou para casa de Julia.  O êxtase do fato logo deu lugar a um pensamento óbvio e desconcertante: ele era um só. Pela primeira vez na vida, olharam-se como rivais. 

No início, cada uma passava os minutos do dia apenas arquitetando como abordar e chamar atenção do príncipe encantado. Julia era capaz de roubar sorrisos apenas com o olhar. Bárbara e sua habilidade comunicativa tornavam possíveis os diálogos: “oi”, “tempo está feio, não é?”, “é”, “tchau”, “tchau”.  Pouco depois, elas passaram a gastar os minutos arquitetando como chamar atenção dele e como impedir a outra de fazê-lo. Uma fez plantão na varanda, a outra passou o dia andando de elevador. Uma fingiu que esqueceu a chave e tocou a campainha da casa dele, outra fingiu que a internet não funcionava e pediu para usar o computador dele. Assim, os vícios humanos passaram a preencher as lacunas de amizade entre elas. Inveja, Luxúria, Soberba, Avareza... (não passaram pela Preguiça e Gula, porque alface e academia faziam parte do maquiavélico plano de cada uma). Um dia, deixaram a porta aberta para a Ira. Julia expulsou Bárbara. E elas nunca mais se falaram. No fundo, sonham com o dia em que vão rir juntas disso tudo. Torcem para que a outra rompa o silêncio, pelo menos antes de 2021. Por enquanto, a saudade segue preenchendo o vazio da velha amizade.

Nota de Rodapé: Atualmente, Rodrigo Santoro está gravando um filme e morando em Hollywood. Está aliviado por não ter esbarrado em nenhum vizinho ainda.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Vai Passar"

          “Amou daquela vez, como se fosse a última”, e era. Dia 31 de dezembro, último dia do ano coroado com um sexo perfeito. Léo levantou-se,  foi tomar uma ducha e fazer a barba. “Ela se virou de lado e tentou até sorrir”, mas com o adiantar das horas, não podia perder  tempo. Luisa não queria se atrasar para a festa  de Reveillon.
         - Já acabou, Léo?
         - Já. Você sabe onde a Maria colocou meu sapato?
         - Não, amor.
         - “Todo dia ela faz tudo sempre igual”, as cuecas no lugar das meias e os meus sapatos Deus sabe onde.
        - Estão aqui. Do lado do criado.
        - Ela é muito distraída. Chega a parecer burrice, mesmo.
        - Ah, amor, “não fala de Maria”. Vamos manter as energias boas.
        -  Então, vai tomar seu banho, porque ainda tem que se maquiar. Devia ter ido antes de mim.
        - Não sei porque. Você é uma noiva. No casamento do Adriano, ficou pronto meia hora depois de mim. E olha que “eu me pintei, me pintei, me pintei, me pintei” e repintei.
        - Mas hoje só me faltam os sapatos...
        -Em vinte minutos estarei prontinha.
        Deu um beijo no namorado,entrou no banheiro e “então ela se fez bonita” .  “Os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar”, e foram, caminhando entre risos e palavras.
       - Ih. Você lembra em que rua a gente tem  que entrar. Nunca fui pra casa deles a pé.
       - Nem eu. Hahahaha. “Imagina, imagina hoje a noite a gente se perder.”
       - O máximo que vai acontecer é termos que fazer o caminho do carro.
       - É aqui.
       - Oi, amiga! Que bom que vocês chegaram. Já estão todos aqui.
       - Nossa, muita animação. Parece que todo mundo já está meio alto.
       - Vocês é que demoraram e “ a gente vai tomando que também sem a cachaça ninguém segura esse rojão”, né mesmo?  Sirvam-se,  também!
       Falaram com um ou outro e ficaram sentados, observando e esperando o alcool lhes desenibir.
      - Amor, quem é aquela minhoca mal matada ali?
      - Ah implicante, “deixa a menina sambar em paz”.
      - Aquilo não é samba. É a manguaça, “ela desatinou” isso sim.
      - “Ela é dançarina”, seu doido. É a filha do Francis, você sabe quem é.
      - O que? A filha do Francis? Mas “essa moça tá diferente” demais.
      - Menina muda muito nessa idade.
      - “Será que desperta gingando e já sai chacoalhando?”
      - Ahahaha. Para com isso. Ela tá dançando bem.
      - Bem longe do que conheço por samba.
      “Vai passar nessa avenida um samba popular, cada paralelepípedo...”
      - Ai, Chico Buarque no Reveillon?
      - Também odeio Chico Buarque. Só colocam pra falar que é cult.
      - Nossa língua tá afiada hoje. Vamos parar pra atrair boas energias.
      - É verdade. Vamos dançar. Nos juntar aos outros. “Todos juntos somos fortes” e é de força que precisamos no ano novo.
     E dançaram como se a noite não fosse mais ter fim.
     - Gente! Vai começar a contagem.
10...9...8...
    - Amor, tenho uma surpresa pra você!
    - Agora?
5...4...
    -Sim. Agora.
2...1.
    -Quer casar comigo? E fazer, não só desse ano, mas de todos, os mais felizes da minha vida?
    - Ai, amor. “Nossa, nossa. Assim você me mata”!
“ Eis que chega a roda viva e carrega” o bom gosto pra lá...