terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ano novo: vida nova?


31 de dezembro de 2000. Ela correu pra fazer a famosa lista para o novo ano que se aproximava. As metas!!! Um passo adiante de um ponteiro, a última badalada em um relógio, o  estouro da champagne, fim de uma contagem regressiva, fogos tingindo o céu de todas cores... O que tudo isso, em apenas uma fração de segundos, pode fazer com a vida de uma pessoa... A partir daquele momento, tudo seria diferente. Dali em diante, ela daria adeus aos dez quilos... A academia, que no ano anterior, raramente frequentou, faria parte da sua rotina... Os livros, que enfeitavam sua estante, seriam todos devorados um a um. Sua meta era ler um por mês! E o projeto de fazer um curso no exterior seria posto em prática: no segundo semestre eu vou!

31 de dezembro de 2001. Muito animada com o novo ano. A lista já estava pronta desde o dia anterior:
1. Emagrecer meus quinze quilos
2. Ir a academia o ano inteiro...
3. Ler pelo menos dez livros em 2002!!!
4. Ver o lance do curso no exterior...
Sonhos anotados... Regressiva, Ponteiro, Estouro, A VIRADA!! Esse ano tudo vai ser diferente!! Fechou os olhos com força e acreditou... 

31 de dezembro de 2002. Subiu na balança! Vinte e dois quilos! Escreveu com calma em uma folha de papel... per-der vin-te e dois qui-los... me inscrever novamente na academia... Tentar ler pelo menos um livro esse ano... uma biografia... bem grossa! Vai valer por muitos...E o curso no exterior!!! Ver isso logo na primeira semana do ano! De 2003 não passa!

2003
2004
2005
...

31 de dezembro de 2011. Ela ainda não conhecia o exterior... Nos últimos dez anos conseguiu terminar “O Código Da Vinci” e começar uns oito títulos diferentes... A academia continua sendo um evento raro... Precisa perder vinte e cinco quilos... Não fez listas... não viu fogos... não estourou nada... Fez contagem regressiva!! Essa não podia faltar...

31 de dezembro de 2012. Dez minutos para a hora da virada. Arrancou uma folha do bloco ao lado do telefone e começou a fazer suas metas para o novo ano que se aproximava... Faltavam dez quilos para perder do regime que começou em junho daquele ano... item número 1 anotado! PERDER DEZ QUILOS... A academia, que iniciou em meados de agosto ia bem... 2. COMEÇAR A NATAÇÃO? O que colocar?... De julho pra cá conseguiu emplacar quatro livros... é... bom... ler mais? Ler um livro por mês? Uuummmm? Não sei... O curso no exterior já não queria mais... passou na prova para o mestrado e começaria logo em fevereiro... 10! 9! 8! 7! Correu para a varanda! Seus amigos já estavam com a taças de champagne nas mãos... Pegou a sua... 3! 2! 1! Estouro... Fogos... Abraços... A lista ficou ali... incompleta... esquecida... No bloco ao lado do telefone...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ano Novo, Metas Novas

Os fogos de artifícios anunciam a chegada do novo ano. Com ele, vem também o desejo de mudança e a esperança de conseguir mudar. Passada a ressaca festiva, é hora de cair na real e tomar as providências necessárias para alcançar as metas. O problema é que é o nível de dificuldade de atingimento, às vezes, é alto demais. Para uma certa família Silva, 2011 foi o ano em que seu Rogério Silva conseguiu “sair do vício do álcool”. Em forma de agradecimento a deus, a meta número 1 do clã é não cometer pecados em 2012. Desde dezembro do ano passado, começaram a frequentar a igreja evangélica. Uma espécie de treinamento para um 2012 sem pecados. Um detalhe interessante é que A Família Silva tem uma forma bem particular de comunicação interna. Falam um com outro utilizando palavras “carinhosas”, gesticulação excessiva e uma quantidade de decibéis muito maior do que qualquer família aguentaria. “SIVANA, PARA DE ANDAR PELA CASA PELADA, E VAI CUIDAR DO SEU FILHO REMELENTO, SUA PIRANHA IMPRESTÁVEL”. É bem verdade que a Família estava se saindo muito bem. Nas primeiras semanas de dezembro, não se bebia mais e não se falavam mais palavrões na residência. Até Silvana aposentou as microssaias! O sacrifício familiar foi por água abaixo no dia do culto de natal. A igreja estava abarrotada e Silvana com o “filho remelento” tiveram que sentar separados da “adorável mãe”. Foi só o pastor começar a pregar, que o “filho remelento” desatou o berreiro. Silvana pegou a criança do chão, colocou no colo e ficou se balançando com a delicadeza e paciência que deus lhe deu. Alguns segundos depois, percebeu que o pastor olhava fixamente para ela. Inicialmente, achou que fosse uma grande honra. Minutos depois, percebeu que todos olhavam fixamente para ela. Do outro ladoda igreja, sua mãe fazia sinais desesperados para ela. Foi então que Silvana percebeu que quando ela pegou o “filho remelento” no colo, o menino se enroscou na sua saia longa e fez com que toda a parte da frente da saia ficasse levantada. O detalhe é que tinha um velho hábito ainda não abandonado: o de andar sem calcinha. Naquele dia ao chegar em casa, a “adorável mãe” deixou para trás três semanas de abstinência de vida pagã e: “SILVANA, SUA FILHA DA PUTA! PARA COM ESSE NEGÓCIO DE ANDAR SEM CALCINHA NA RUA. SÓ ME FAZ VERGONHA. E VAI PEGAR UMA CERVEJA PARA MIM QUE EU ESTOU NERVOSA. SÓ PARA APROVEITAR QUE 2012 NÃO CHEGA. AH, TOMA NO CU.”


Sinto um alívio bem egoísta quando eu penso na minha meta número um e na meta número dos Silva. Para atingir minha meta, eu preciso de força de vontade e muita dedicação. Já eles, precisam de tudo isso e de um verdadeiro milagre. Espero que todos tenham a força necessária para fazerem suas revoluções particulares em 2012. E que seja um ano do caralho!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tomates, Cebolas e um Feliz Ano Novo

O dia primeiro de dezembro entrou na vida dela berrando feito um despertador. Faltava só um mês para o fim do ano! E o que ela fez durante todos esses dias? Só lembra de ter chorado, falado no ex e chorado mais um pouquinho. Chega! Era dia 01/12 e ela precisava terminar com o término daquele namoro. Estava solteira há meses, era hora de agir como tal. Enquanto planejava sua agenda do fim de semana, preparou um belo jantar. De entrada: salada de tomates com muuuuuita cebola. Desde o início do namoro fracassado, ela evitou as cebolas porque ele as odiava. Agora, estava livre. Comeu sua salada de cebolas e tomate com um prazer quase orgásmico. Antes de partir para o suflê percebeu que estava faltando algo. Um brinde. Decidida como nunca, partiu em busca do vinho perfeito. No caixa do supermercado, com seu Catena Zapata na mão, sentiu-se poderosa. Era quase uma estrela de cinema mesmo com seu shortinho branco e a camiseta velha do Mickey. Seu momento tinha até trilha sonora. I Will Survive tocava às alturas dentro da sua cabeça. Estava oficialmente viva.


Uma cutucada nas costas arruinou a cena. Era ele, o ex, de mãos dadas com a namorada – Linda, diga-se de passagem. Ele sorriu, cumprimentou a ex-poderosa do supermercado. Ela pensou que talvez fosse desmaiar ou morrer. Tentou dizer oi...Nada saia. Só "gruídos". Tentou mais uma vez e lembrou que além daquela roupinha miserável estava com um bafo de cebola terrível. Então, sorriu deu um tchau e saiu com o vinho em baixo do braço.

Ainda gostava do ex. Teve certeza disso. No entanto, estava firme no propósito de mudar, de entrar com pé direito e coração aberto no ano que ia chegar. Antes que All By myself começasse a tocar na cabeça, ela colocou uma música animada e manteve os planos: Jantou seu jantar, tomou seu vinho e seguiu a agenda de solteira durante o fim de semana inteiro. Depois daquele dia do supermercado, as ligações do ex ficaram frequentes. Mesmo sem saber o que ele queria, não atendeu. Nunca mais. Faltava só um mês para o réveillon e tudo que ela queria era uma história nova em 2012.

Mal sabia ela que no dia 1/12, no supermercado, ele a olhou de um jeito diferente. A segurança dela o fascinou. Admirou-a como nunca. Sentiu saudade. Tudo o que ele queria em 2012, era aquela velha história.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A TURMA DO 301

Quando ela chegou, a festa já estava rolando há algum tempo. Já no hall de entrada, sob a estranha luz avermelhada ela se arrependeu de ter ido. Era uma festa estranha, com gente esquisita. O único móvel na sala era um sofá. Nele, duas mulheres analisavam com afinco os convidados. Não faziam questão de esconder que também achavam aquela gente toda muito estranha. Alheia ao sofá, estava toda aquela gente estranha. Era uma gente de idades diferentes, tribos diferentes, sotaques diferentes, sexualidades diferentes, culturas e crenças diferentes. Que mistura estranha: essa gente, tão diferente entre si, junta. Do hall de entrada ela os observava. Pareciam exagerados, saídos de uma cena teatral. Ela, sem dúvida, não se encaixava. O sofá e as mulheres que o habitavam pareciam o porto mais seguro para os cinco minutos que permaneceria naquele local. Ela já se encaminhava para lá, quando DJ lançou uma música pré-histórica. A canção fazia parte da infância dos de 30, da adolescência de 40 e da fantasia dos de 20. Mas, todos sem exceção, de 20, 30, e 40 saíram de onde estavam para dançar e cantar juntos uma música bobinha do Balão Mágico. Se a situação já era estranha, passou a ser inacreditável. Só uma cerveja podia salvar a vida dela naquele momento. Antes de sentar no sofá, foi até a geladeira. Da porta da cozinha, sem mais nem menos, virou-se e olhou para sala. Que engraçado! Dali, de onde estava, a luz vermelha do Hall pareceu acolhedora. Daquele ângulo, aquelas pessoas não pareciam tão estranhas. Eram tantas idades, tribos, sotaques, sexualidades, culturas, crenças... que se misturavam perfeitamente. Seus gestos, palavras e gargalhadas se encaixavam na cena. Parecia tudo muito pensado por um diretor de cinema. Como aquela mistura de diferenças podia ser tão harmoniosa? Ironicamente, a música bobinha que deu a resposta: Eram "amigos, amigos do peito, amigos de uma vez"! O resto era detalhe.


Então, ela pegou a cerveja, mas não foi para o Sofá. Invadiu a pista de dança e se misturou. Sem saber, naquela noite, ela estava conhecendo pessoas que a acompanhariam para o resto da vida.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mulher Berinjela

       - Berinjela é bom pra depressão e ajuda a emagrecer.
   Ouvir essa frase transformou sua vida e rotina. Não sei  se há comprovações  científicas sobre a afirmação, mas foi o suficiente para ela.
      Berinjela tornou-se um obsessão.
     -Estou me sentindo outra pessoa depois que incluí berinjela na minha dieta. Você devia experimentar. – disse a um amigo próximo.
      - Eu não gosto muito de berinjela.
    - Ah, mas você pode fazer berinjela de várias maneiras, berinjela assada, berinjela recheada com cotagge, berinjela no vapor, berinjela grelhada, só não aconselho berinjela à milanesa embora seja muito gostosa. Tem lasanha de berinjela, berinjela em conserva, pasta de berinjela, salada de berinjela com maçã, berinjela seca, berinjela capri, rolês de berinjela, até carpaccio de berinjela. Berinjela, berinjela, berinjela, berinjela...
      O som da palavra repetida pela amiga e ouvida tantas vezes fez com que o interlocutor perdesse, por algum tempo, o significado dela, tornando a “berinjela” um vocábulo estranho. Pensava e a única coisa que lhe vinha à mente era o rosto dela, da obsessiva.  Imaginava a amiga em uma saladeira rodeada de maçãs, em um forno com a boca cheia de cotagge, em uma compoteira de vidro e até à milanesa. Saiu do bate papo atordoado. Passou na mercearia e comprou a maior berinjela que achou. Em casa lavou a leguminosa, fez-lhe um buraco , foi para o quarto, tirou toda a roupa e deitou-se na cama. Olhou a berinjela com ternura e volúpia. Tinha obsessão pela amiga.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Antídoto

Tinha obsessão pela Morte. De certa forma, sempre soube que ia morrer cedo. Não sei se a revelação se deu na infância, quando perdeu o pai precocemente ou, se na adolescência, quando se encontrou secretamente com algum tipo de cartomante ou vidente. Ou foi uma cisma, num dia de sol ou de chuva qualquer. O fato é que, um dia, ele cismou com a “velha senhora”. Teve medo da Morte. Ele tinha a certeza que a vida lhe seria tirada a qualquer momento, por um motivo fútil qualquer. E correu da Morte, como quem corre os cem metros rasos na olimpíada. Corria prestando atenção e curtindo cada segundo de suor, esforço, dor e euforia do trajeto. Naquele dia da cisma, foi dada a largada. Ele mergulhou de cabeça no trabalho, nos romances, na família, nos amigos, nos eventos. Pouco descansava, pois sabia que o tempo era curto. Para vocês terem uma idéia melhor sobre o que estou tentando dizer, vou narrar um metrinho da maratona dele: eis que um dia ele estava, a trabalho, em terras paulistas. Lá, soube que sua mulher havia entrado em trabalho de parto. Não podia perder o nascimento do seu filho, mas não havia vôos. Os poucos vôos que restavam naquele dia, estavam lotados. A tendência seria entrar em pânico, mas como isso o faria perder mais tempo do pouco que sabia que tinha, ele raciocinou. E na fila intensamente cheia de uma companhia aérea qualquer, começou a contar, para cada passageiro, a sua história e as razões pelas quais não poderia perder aquele acontecimento. Uma senhora se compadeceu e por um milagre conseguiram trocar as passagens. Sim, ele chegou a tempo de ver o seu primogênito nascer. Também conseguiu chegar a tempo para os aniversários de 1, 2, 3, 4...o nascimento do seu segundo filho, 5, 6, 7...formaturas, casamentos. Aos 60, o velho medo tomou forma, cheiro e cor. Mas ele queria ver o nascimento do seu primeiro neto e resistiu. Minha última lembrança dele é uma sonora gargalhada. Horas depois de ter falado com ele ao telefone soube que tudo se complicara naquele quarto de hospital. E que finalmente a linha de chegada tinha chegado para ele.


Em meio ao silêncio deixado, tive oportunidade de pensar sobre tudo. Cheguei à conclusão de que seria injusta se definisse esse homem como um obcecado pela Morte. A fixação era o antídoto, era a dose diária de impulso para a corrida. O justo mesmo seria recomeçar esse texto com outra frase. Porque nunca, em toda minha existência, vi alguém mais obcecado pela vida do que ele. E ao som daquela gargalhada encerro minhas palavras e meus pensamentos por hoje...

PS: Em homenagem ao primo Beto e seu jeitinho Carpe Diem de viver.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Hora Do Adeus

Domingo, 11:55 da noite.
Faltam 5 minutos para o início do resto de sua vida.
4: o último brinde!
Sabia o que estava por vir.
3: O último suspiro!
E não seria fácil.
2: O último grão de felicidade!
Sensação de vazio.
1: O último gole!
A difícil nova fase.

Segunda, 00:01
Dia internacional da dieta.
Felicidade, te encontro daqui a alguns meses,
Na esquina da praia com a rua Verão.