quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Despedida


Numa troca de olhares...
   A cumplicidade...
      Tristeza camuflada por sorrisos duros...
          Palavras ocas em frases murchas.
             No silêncio dos olhos...
                As compreensões, os perdões e as promessas.
                    Num olhar...
                        No silêncio...
                            Tudo o que se faltou dizer.
                                Num abraço apertado...
                                     No acenar das mãos...
                                         Os olhares...                
                                                                                         ...a despedida.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A GRAMA DO VIZINHO

Da janela lateral


Débora chegava mais ou menos na mesma hora, linda e decidida. Passava pela sala apressada. Voltava pouco depois: Cabelos molhados, robe, taça de vinho na mão. Sentava-se à mesa, jantava, falava ao celular e apagava as luzes. Tinha dias em que o Príncipe, o namorado loiro, de porte atlético aparecia lá e eles se perdiam um no outro. No fundo, eles se achavam um no outro, com a ânsia de quem pode se perder para sempre no minuto seguinte.
Há anos, Ana acompanhava a vida de Débora, da janela lateral do quarto dos filhos. Débora - era assim que Ana a chamava para si. Débora, um nome forte, talvez o único que lhe coubesse bem- com seu pequeno ritual que acontecia exatamente na hora em que Ana cumpria a tarefa árdua de botar os seus para dormir. Ana lidava bem com a inveja confessa que sentia de Débora. Apesar da presença da vizinha lembrar a Ana tudo o que ela não era, aquela mulher trazia o conforto de existir uma possibilidade de vida diferente da sua própria. E de uma forma particular, Ana tinha a liberdade durante alguns momentos do seu dia, de ser o que gostaria de ter sido: uma mulher de personalidade com alguém que a amasse do seu lado. E diariamente vivia momentos em que ela podia simplesmente não ser Ana.

Da janela da Sala

Gabriela nunca teve certeza de que escolheu a profissão certa. Talvez por acomodação ou falta de entusiasmo de fazer outra coisa, continuava ali. Continuaria ali para sempre. Não pensava muito no que sentia. Todo dia era a mesma coisa: academia, trabalho, casa, banho, jantar, vinho, telefone, cama. E estava tudo bem. Estaria tudo bem. Até que um dia depois da maratona sexual, Gabriela se aproximou da janela e olhou, sem querer, a janela da vizinha. Era um dia de semana e já amanhecia. A vizinha estava absorta no ritual de acordar os filhos. Ela cantava e os meninos iam acordando aos poucos com certa resistência. Aos poucos foram cedendo à mãe. Em poucos minutos estavam os dois meninos arrumadíssimos para ir à escola. E todo o ritual pareceu leve como brincadeira de criança. Saíram do quarto os três às gargalhadas.

Gabriela nunca se sentiu tão exausta na vida. Percebeu que estava cansada de tudo, do seu trabalho, da sua vida, da sua solidão. Sentiu uma leve carícia na cabeça. Era sinal que seu amante estava partindo, como sempre, para o lugar onde pertencia. Tudo o que Gabriela queria naquele momento, era ser feliz como a mulher da janela lateral.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Fantasia



- Mamãe, acabou. Coloca de novo.
- Mas essa foi a terceira vez.
- O que houve?
- Aurora quer assistir Branca de Neve outra vez.
- Minha filha, tem tantos outros aqui. Três Porquinhos?
- Não.
- Chapeuzinho Vermelho.
- Não gosto de lobo, papai.
- Cinderela? É outra princesa linda.
- Pode ser esse?
- Pode.

“ O sonho é o desejo d´alma. N´alma adormecer...”

- Mamãe, acabou.
- Mas essa foi a terceira vez.
- O que houve?
- Aurora terminou outra vez.
- Minha filha. Já é o terceiro namorado esse mês.
- Nenhum homem presta, papai.

“N´alma adormecer...”  “N´alma adormecer...”  “N´alma adormecer...” ... Zzzzzzzz.

domingo, 12 de junho de 2011

Feliz Dia da Independência Russa


O dia já começou assim com dores no estômago, enjôo, agonia de estar sozinha. Era dia dos namorados. O primeiro do resto de sua vida e ela tinha certeza que esse seria sem flores e sem bombons.  Tinha um medo gigante de que sua vida fosse ser sempre assim daqui para frente. Tinha medo de ficar solteira para sempre. Tinha medo de não encontrar o homem da sua vida. No fundo, nem acreditava mais nisso, mas a pressão daquele dia a fazia sentir uma fracassada. Claro, lá no fundo tinha uma esperança que algum milagre acontecesse. Por isso entrou no Facebook. Talvez tivesse uma mensagem...Um convite...Nada. Não para ela. Depressão, solidão, depressão. Estava disposta a se suicidar num copo de coca-cola, sem ser zero, às 10 da manhã. Ia dar o primeiro gole quando o milagre aconteceu.
Não era um telefonema, ou mensagem, ou flores, era só o post de um amigo: Feliz dia da Independência da Rússia. Em algum lugar do mundo não se comemorava o maldito dia dos namorados! Sim, sua vida estava salva! Ela decidiu entrar no clima da festa... deles. Jogou na pia o líquido venenoso e cheio de calorias que tinha no seu copo e começou a organizar a sua festa. Convidou os amigos, os amigos dos amigos (podia ser que aparecesse algum solteiro interessante) enfeitou a casa, fez o playlist. Até traje típico inventou. O dia passou que ela nem viu. Chegaram os amigos, as vodcas, os amigos dos amigos. Entre vodcas, risos, babalaicas, amigos e amigos dos amigos ela se deu conta. Estava feliz. Solteira e feliz. Sem flores, sem bombons e feliz. Além da independência da Rússia, estava comemorando a sua própria.  E brindou à vida e a todas as possibilidades que poderiam surgir daí para a frente.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CACHORRA...

    - Fala rápido porque Ruth está na cozinha... Ok... Sim, entendi. Às três horas no lugar de sempre.  Beijo. Tenho que desligar. Também te amo.
    Suas entranhas se contorcem em um misto de dor e frio. Não tinha como negar. Acabara de ouvir o marido confirmando um encontro. Nervosa corre para a cozinha. As mãos trêmulas, a respiração ofegante.
    -Bom dia, Ruth. Café está pronto?
    -Bom dia, está sim, querido.
    - Porra, Ruth! Presta atenção!
    - Desculpe. Deixa que eu limpo.
    - Agora vou ter que tomar café na rua!
    - Não precisa, eu passo outro rapidinho.
    - Devia passar a sua língua pra limpar isso aí.
    A batida da porta a estremece. O marido se fora. Acaba de limpar o café que derrubara no chão e, pensativa, senta-se. Às três horas o marido se encontrará com a outra. As imagens dos beijos, abraços, carícias e do sexo a apavoram. Confusa, corre para o quarto e entre choro, vagina e dedos sente que seu homem nunca lhe fora tão atraente. Um gozo, como há muito não sentia, a faz convulsionar em prazer. Adormece.
    - Ruth! Ruth!
    Acorda com o marido a sacudi-la.
    - O que houve?
    - Nada. Deitei pra descansar e peguei no sono.
    Dá-se conta da situação e pergunta em sobressalto:
    - Que horas são?
    - Sete.
    Levanta-se , ajeita a roupa e o cabelo. Dá um beijo carinhoso no marido.
    - Não se preocupe, querido. Seu jantar vai sair rapidinho. Do jeito que você gosta.
    Sai do quarto. O marido a observa atravessar o corredor. Acha a esposa diferente, as ancas se remexem com mais volúpia, como a lhe abanar o rabo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cachorra!

Eram 22:29 quando ele desligou o cel. Trocaram declarações de amor e se deram "boa noite", como num dia comum. Ela estava com pressa, como sempre "atrasada" para o plantão. Eram 22:35 quando ela desceu do prédio. E não foi surpresa para ele quando a avistou de longe: toda arrumada, maquiada... inadequda para o trabalho. Ela pegou um taxi. Ele a seguiu, pois já sabia que ela não iria para o hospital.

Ela saltou na porta da boate, quinze minutos depois, confirmando todas as suspeitas dele. Ele podia largar o carro, adentrar a boate e desmascará-la. Mas, não faria. Pelo menos, não agora. Ali, ele não iria encurrala-la completamente. Ela era boa de argumento. Mas, ele decidiu que hoje ela não venceria.

De dentro do carro, ele a viu sair às 2 horas da manhã. Saiu sozinha. Ele acelerou o carro rumo à casa dela. Hoje! Confirmaria por A mais B o que no fundo já sabia. Hoje! Expremeria aquela mulher até ela cair. Hoje! Ela confessaria todos perdidos, vomitaria a coleção de mentiras. Hoje seria o dia da vingança.

Às 2 e 10 o telefone dele toca. Era a cachorra. Como era frágil aquela voz que dizia sentir saudades, como era doce a voz que dizia ter saído do trabalho só para vê-lo. Nesse momento, a raiva roubou todos os sentidos do seu corpo e da sua alma. Teve uma certeza absoluta que mataria a mulher. Entrou no apartamento dela e esperou.

Pouco tempo depois, ela apareceu: cheirosa, sem maquiagem, em trajes de trabalho...A desgraçada mentia tão bem que por um momento ele duvidou de si mesmo. Como conseguia ser tão filha da puta e tão princesa ao mesmo tempo? Admirou profundamente aquela mulher. E ficou sem ação por uma fração de segundo! Uma breve trégua, até a raiva o consumir de novo. Ele não se conteve: Pegou a cachorra e a matou. Matou de prazer e exaustão. Comeu com tanta fúria e tantas vezes que o ódio foi se diluindo a conta gotas, até jorrar no silêncio. Satisfeito, olhou para ela. Chegou a sentir pena da cadelinha linda, derrotada, deitada ao seu lado no colchão. Estava presa a ele, não importava aonde ela fosse...sempre ligaria no final da noite e voltaria para ele com o rabinho entre as pernas. "É", pensou, "ficaria com a cachorra até o dia em que não a amasse mais". Nunca se sentiu tão poderoso. Hoje! Estava vingado.

domingo, 8 de maio de 2011

Nem Tudo Sobre Minha Mãe

O enjôo pelo café foi o que fez ela desconfiar da certeza quase irrefutável de que estava grávida. Apesar de nunca ter pensado nisso concretamente antes, a idéia de ser mãe pareceu-lhe bacana. Foi numa terça-feira de manhã, vários meses depois da descoberta, que a verdade caiu sobre ela. Estava grávida!! Sentiu o peito gelar. A idéia de ser mãe não lhe pareceu tão bacana. Por um segundo quis desfazer o feito, voltar o tempo, e ser só novamente. Não se sentia preparada, era uma criança! Na verdade, tinha 26 anos. Mas, definitivamente não estava capacitada pra cuidar de outro ser humano. Como iria educar, trocar fraldas, entender porque o bebê chorava, solucionar problemas, tomar decisões? À medida que o medo se apoderava dela, a única imagem que vinha à cabeça era a da sua mãe. Pela primeira vez na vida deixou de vê-la como a mãe retrógrada de conceitos rígidos que a censurou tantas vezes. Olhava-a como mulher e admirou-a por ela ser tão forte e decidida. Ao mesmo tempo em que perdoava silenciosamente os incômodos vividos na infância, pensou que queria ser uma mãe tão boa quanto a que teve. Só não sabia como.

Quando abraçou a pequena criatura pela primeira vez, soube. Compreendeu que ser mãe era ter um coração batendo fora de si. Era ter medo de errar, era querer acertar, era desejar com uma força inimaginável que tudo desse certo, era sentir um amor incomensurável e incondicional. Naquele momento, compreendeu como era assustador e incerto o futuro. Mas, sabia que faria o melhor possível.

Obs: Mãe, minha pequena grande heróína, uma homenagem para você.